Buscando não se sabe bem o quê.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Estamos Todos Bem




A má notícia circula pelos telefones. O fulano que jogava futebol com a gente está doente, muito doente. Ele tem apenas 50 anos. Não é fofoca, comentam, é verdade pura. Nossa vida caduca parece que está chegando. E a televisão não vai ser mais em cores, o mundo tridimensional veio para ficar e nele não existe mais espaço para nós que cantávamos canções felizes, porque éramos jovens. Hoje só resta disfarçar o riso. Enfrentar a luta imparcial. Sair para a rua e, talvez, descascar. Espichar o corpo para aparentar que está em forma, esconder as marcas malditas do tempo.

Até que na madrugada, no quarto úmido, em cima de uma cama manca, o homem beija o pé da moça rebelde. Chapada ela nem olha com respeito. Isso irrita e a vingança é um tapa de luva. Desajeitado decide agir delicado. Sutilmente - e ser sutil é obra da idade - pega na mão da bela guria gostosa e esboça um sorriso de cínica ingenuidade. Ela não titubeia e vomita deboche. Ri até ter um troço. O homem ofendido pensa em fazer besteira, mas é contido pelos necessários limites que aprendeu no berço da velha infância distante. Resolve disfarçar em paz. Afinal, estamos todos bem.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Ilustre Tolerância




Tomava chopp com os amigos quando o celular tocou. A empregada varreu o escritório e o wireless caiu. Estão todos sem internet. Ninguém sabe o que fazer. Que se virem, ele pensou. Mas não seria justo dizer algo tão agressivo. Então, com voz morna e suave, disse: estou indo para casa agora.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Descura




Hoje de manhã quando estava na ducha pensei em um texto para postar aqui. Todo ensaboado, da cabeça aos pés, fiquei matutando sobre os termos da postagem. Ruminei inclusive a grande imagem que iria chamar atenção dos agentes desavisados. Os meus parcos e insistentes leitores inglórios. Estava tudo perfeito, límpido e claro na minha cabeça bolorada de shampoo. Mas o tempo passa e a gente se engana.



Do que estou falando mesmo? Não, não quero participar das banalidades do mundo. Detesto quando o mundo todo fica em silêncio ouvindo um contador de piadas. Tenho pretensões maiores. Minha arrogância firme não permite que eu me rebaixe para o mundo do populacho.

Minha deusa disse um dia que gostava dos Filhos de Francisco. Aquilo me deixou tão nervoso. Confesso, fui crítico e áspero. Ela não gostou. Fiquei com remorso e vesti a camiseta de bendito. Sou tecnológico e baixei para dar de presente a música em mp3. Meu esnobismo peculiar impediu que eu entregasse a ela o maldito arquivo que se encontra hoje perdido nos labirintos de meu armazém digital. Nunca mais tocamos no assunto.



Estava mesmo tomando um banho de ducha, já atrasado para o compromisso que tinha às 9. Pensei em postar algo aqui -- era disso mesmo que estava falando -- mas meus entorpecidos neurônios conseguiram complicar e nebulizar os significados das minhas mensagens. O que posso, então, fazer?



Tomo linhaça, quando minha deusa me dá. Engulo - três vezes por semana -- remédio para baixar o colesterol. Faço ginástica, corro um monte, jogo tênis, fico suado até encharcar a alma. Mas me esqueço. Sou esquecido, ora bolas.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Trocando de Planos


Vai uma skull cake ai?


Perdi 12 pilas numa cartada. Só porque não paguei a conta ontem. Fui multado. O homem do plano esteve aqui hoje me oferecendo alternativa melhor. Disse que o quarto pode ser privativo, mas que a carência continua de 6 meses. E se eu tiver um câncer em 2 meses? Ele me olhou cabisbaixo -- impressionante como ele é parecido com meu sogro -- e perguntou se eu tenho alguma doença preexistente. Eu disse que não conheço muito bem o meu corpo e que esses trequinhos podem muito bem ficar escondidos até que uma hora ele se manifesta. Por enquanto não se manifestou. Não sei se ele entendeu o que eu quis dizer. Telefonei para a deusa comunicar as últimas novas. Desconfiada ela disse: tem de verificar melhor, ler o contrato, olhar o site. Foi isso o que ela fez, acessou a internet e deu uma olhada na página e trouxe zilhões de dúvidas. Impressionante como minha deusa é boa detetive. Educada, ela apenas me disse com sua voz de razão: tem que pensar melhor. Liguei para o homem do plano, ele volta na semana que vem, disse que vai trazer o contrato para exame. Minha deusa sabe das coisas.

Descobri




Descobri que não tenho mais 21 anos. Que o mundo é finito. Que o mundo pode estar certo. Que tudo termina. Que a existência é pó. Que os diamantes são eternos. Que eu sempre sonhei. Que eu tive alguns pesadelos. Que eu posso estar errado. Que eu até posso estar certo.Que eu posso estar mais errado do que certo. Que os cabelos ficam brancos. Que as rugas tomam conta da testa. Que as mãos embranquecem. Que as unhas dos pés podem ficar pretas. Que minha vida linda pode se tornar feia. Que a minha voz não é mais a mesma. Que as pessoas podem perder a resistência.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Berlim




Eu disse Tchuss. E ela nem me respondeu. Estava ficando farto do frio de Berlim. Gostava daquele local que tocava salsa. Era ponto de encontro dos latinos. Ali na Kantstrasse. Se chamava.....


Tentei buscar na web o nome do local. Será que existe até hoje? Todos dançavam Samurai no meio da pista. Fazia questão de cantar bem alto, para que todos ouvissem. Mas ninguém escutava. Assim é Berlim.

Apenas um Post




Queridos Sobrinhos. Titio vai viajar. Vai ficar um tempo fora, vai lá para o outro lado do mar. Onde o tempo é outro. Já ouviram falar de fuso horário? Titio vai trazer presente do freeshop para a garotada, viu? E quando titio voltar vai ter sessão de slides.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Robot 50





O Robot 50 descobriu um novo anel perto de Saturno e um quadro do Da Vinci que estava escondido atrás de uma parede num palácio de Florença.
Perdi a senha do Robot 50. Ele anda impossível.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Procuro sombrinhas para me proteger do calor da luz



Minha quentinha não chegou e eu aqui preso. Sentado esbaforido no chão da laje fria esperando o anúncio chegar. Que horas são? Falta pouco ou falta muito. E isso me corta os nervos. Fico tonto de tanto pensar. Preciso de algo, alguma droga refrescante que me faça dormir. Um pequeno drops para aliviar minha boca mal cheirosa. Estou pressentindo o perigo em todos os lados. Meu olhar atento se confunde com minha prejudicada audição. São vozes e cheiros incômodos que vêm de todas as partes. E eu atravessado no porão de uma cela cerrada, sem portas, sem vidros ou janelas. Quero grades para segurar. Um alçapão para ouvir o som da madeira batendo. Porque perco os sentidos, minha boca está seca. Não tento, porque não consigo balbuciar. Palavras, elas existem? Ou apenas pequenos significados que atordoam a memória. Esqueci a curva de meu próprio círculo. Não existe tangente, nem núcleo e nem célula. A fome nunca sacia e a quentinha não vem. Soluço diante da inércia do vácuo.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Lolô




Liguei para Doralice, mas não consegui falar com ela. A mulher da operadora disse que o telefone não existe. Fiquei preocupado. Ansioso, tomei o taxi e fui para a Tijuca. Ninguém em casa. Nem mesmo sua vó. Estranho. Deixei um recado, para ela me ligar. O telefone e tudo.

De tarde, em Copa, recebi seu torpedo: me espera que estou indo. Comprei uma camisa e fui para a sauna. De banho tomado corri para a casa. Lá estava ela, toda de dourado. Linda como Gina Lollobrígida. Minha Lolô! disse para ela. Desconfiada ela me olha: Lolô, eu hein!

Acordado




Para aqueles que não querem ouvir eu esboço o meu soluço. Sou sonâmbulo, caminho pela casa na madrugada repleta de chuvas e tormentas. Tudo parece tão sóbrio e isso me faz ficar calmo. Ligo a rádio AM e escuto a difusora. O radialista diz que o temporal está forte. Eu ouço em silêncio abaixando o volume do pequeno equipamento. O samba de Clara Nunes reanima minha vida. Volto aos lençois pronto para o dia que está por vir.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Triste




Mãos masculinas carregam as aldravas douradas da caixa pesada. A vida é finita e ficamos perplexos diante do fim. Os espíritos silenciam. E proclamamos nossas orações de olhos fechados. Temos de acreditar em algo. Guarda-chuvas acompanham o ato. Alguns choram outros não. Os pingos caem no final da tarde. Eles engrossam. O silêncio é absoluto. O frio acalma. A pá espalha cimento sobre as aberturas. As flores são expostas sobre o túmulo. E todos se vão. Fica o corpo. Ficam as cinzas. Fica a vida que já existiu.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Um Dia a Gente Descobre


Por favor, a senhora do 208.
Ela saiu?
Foi para o aeroporto?
Obrigado.
Ela foi embora, porque descobriram
que toda malvada é psicopata.
Dizem que ela foi para Portugal.
Que comprou apartamentos.
Sei lá.

O Implicante - Parte Um ou Parte Única




Fui pego pela implicância. Ela me liquidou. Fiquei chato, acabrunhado, quase casmurro. Sou um implicante. E sou um implicante mordaz, insensível, aquele que não sabe parar quando deve parar. Sou um implicante chato. Desde pequeno fui assim. Um pé no saco.

Sinto vontade de implicar, deixar as pessoas furiosas, criar casos inconsequentes, ciladas manhosas, cizânias inverossímeis. E quando as pessoas entram nas curvas das minhas artimanhas. Elas sobram. E eu berro de gargalhada.

Falo isso agora aqui sozinho no meu apartamento vazio. Ele está cheio de memórias que eu guardo aqui dentro. Resolvi colocar para fora aqui no Blog. Porque um dia eu pego aquela gatinha.

Eu vi


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