Buscando não se sabe bem o quê.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Alvorada


Do alto vejo o jogo, no campo descampado. Bola na trave, o chute violento do jogo. A grande diversão. O menino que solta pandorgas. O menino que corre descalço. A mãe que amassa e soca o pão. O pai que puxa a carroça. O fogão à lenha que aquece o pequeno ambiente. A menina que brinca com o resto de comida que não sobra.

Quando o avião sobe no meio da cidade depois dos edifícios bonitos se enxerga uma multidão de casarões de telhado de zinco. São diminutos ambientes de um quarto só, uma cama só. Lado a lado, simetricamente ordenados. Estrada de chão. Rua de chão. Vila Umbu, Vila Tupã, Vila Intersul, Vila Caxambú, Vila Campos Verdes.

São multidões de carroças e carros velhos que passam de um lado para o outro. Ordenados e desordenados se dirigem à grande cidade para colher o resto de tudo. E quando chega a noite elas despejam o produto para a multidão catar no meio do lixo e da insalubridade.


Do alto do meu vôo eu pego o jornal e leio. Mais um crime em Alvorada. Mais um record em Alvorada. A cidade campeã de tudo. Está ela ali embaixo. E eu aqui em cima. Num outro mundo, num outro ambiente. Estou distante, bem distante daquela multidão que mora lá embaixo.

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Mínimo Eu


Necessito urgência. Um pouco de urgência. Para ontem. Não posso mais aguardar. Quero uma definição logo. Logo. Alguma resposta, alguma explicação. Explique-se.

Não tenho pensado mais nos últimos tempos. Faz parte da solidão que resolvi ficar. Não posso mais ser eterno enquanto dure, a raiz não é minha. Ando vacilante pela dor do inferno infinito. O tempo todo a mesma hora.

Estou só no meio de tudo. Não posso mais ser infeliz e feliz ao mesmo tempo. Tudo agora passa e repassa. Encontra e desencontra. Ameaça e atrapalha. O resto de mim que ficou no corpo. O colchão fedido de dores do alívio. A tortura sagaz da alma que corta.

Lembro os tempos de outras eras. Minha encarnação já vivida. Almas silenciosas que por mim passaram e nem percebi. Rostos ambulantes que me sorriram e eu nem respondi. Não olho as faces do mundo. Não olho nem um segundo.

Por isso estou aqui, metido a poeta vadio. Dignificando o exagero dos fatos, alimentando o antagonsimo de meus pecados. Escondo meu nome para que ninguém identifique. Mas sou eu. Alegre eu. Triste eu. Apenas eu.


(Acima mais uma escultura de Ron Mueck)



segunda-feira, 6 de agosto de 2007

domingo, 5 de agosto de 2007

O Eterno Retorno


Nietzsche sempre me fascinou e atordoou. Volta e meia me deparo com ele. O eterno retorno de sempre. Luc Ferry me reapresentou a Nietzsche, o carinha da pós modernidade, o filósofo do martelo, o aniquilador de ídolos, o crítico do inchaço metafísico, aquele que diz que o real é um caos que nada tem de cósmico ou divino. O mundo como pluralidade irredutível de forças, de instintos e pulsões que vivem em confronto. O mundo como fluxo perpétuo, desestruturado, caótico, fragmentado, ilógico, despejado da bela unidade que a perspectiva e o respeito às regras da harmonia conferiam às obras de arte do passado (forças ativas). O racionalismo científico é uma ilusão. As forças reativas, as que se expandem e produzem todos os seus efeitos reprimindo, aniquilando e mutilando outras forças. A força da reação à metafísica, à ciência e à religião que pretendem ascender às verdades ideais e que não pertencem ao universo corporal. A moral do imoralista que acredita -- finalmente -- numa conciliação de todas as forças ativas e reativas. O novo ideal, a grande arquitetura, a grandeza, o entendimento entre poderes opostos, a coalização de forças irreconciliáveis. O grande estilo. O senhor do caos interior, aquele que força o caos a assumir forma, o agir lógico, simples, categórico. Novamente o grande estilo que domestica e integra as forças reativas. A harmonia como condição essencial para se viver bem. A vontade da vontade. O amor fati, o amor do momento presente, do destino, a inocência do devir, o eterno retorno, a salvação terrestre, sem ídolos e sem Deus.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

O Acorde e a Espera


Embolorou o bolo que fazes. No forno a forma aquece. Ferve o líquido. Esquenta o sólido. Quente está. Na medida certa, cheio de polvilhos e construções.


Não devo mais ficar sentado, esperando você concordar.


Enriqueço meus desejos com os brincos que te dei. Pequenos diamantes que usas todo o dia. Eles são eternos.


Não posso mais ficar sentado, esperando você concordar.


Estou rouco chupando bala amarga. Ela se dissipa na boca do hálito. Fico longe, quase distante - a doença pode pegar.


Quero esperar sentando, esperando você concordar.

segunda-feira, 30 de julho de 2007

Sobre líquidos e sólidos



Sou um deus que busca perdão. Procura conclusão. Existe deus sem empáfia. Ser incapaz de amassar bananas e comer o fruto que o diabo amassou. Vítima da blefe por mim causada. Um deus bípede que patina na graciosa interpretação. Não sou de aço e nem de vidro. Sou feito pele, a minha imagem e semelhança. Sou aquecedor de sopas no inverno. Como pode um deus ter dor nos joelhos? A garganta divina pode arder no frio? Pode sentir o vento na nuca? A dor do amor de aço é contundente. Interminável. Intempestiva, ela desaba sobre minha cabeça. Amassa tudo o que vê. Meu escudo. Teu escudo. Inflexível. Líquido. O sólido que não desmancha no ar.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Bananas Amassadas


Meu labirinto é o teu.
Somos presas da mesma senha.
Da mesma sanidade insana.
Somos nós.

Pobres nós.

Rebeldia, juízo, hipocrisia.
Vida, morte, fantasia.

Revela o fato descoberto.
Maquia a dor com detalhes.
A vida pode não ser nunca igual.
Cegos no otimismo.
Surdos na compreensão.

A história já assinalada.
Diálogos feitos. Livros raros.
Produção imprópria.
O frio que vem dos Andes.
O vento que abrange o sul.

Sintetizando palavras soltas.
Esquisitices anormais.
Catarse anacrônica.
Momentos líquidos.

Peras inválidas.
Maçãs que ficam pequenas.
Bananas Amassadas.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Por que a gente é assim?


Mais uma noite no sofá. É melhor que o banco do carro. É melhor que o flat frio. Pelo menos se respira família, ninho e amor. O futuro não é mais como era antigamente, dizem e repetem. Mas o futuro pode não repetir o passado. O futuro pode ser duvidoso e se transformar num museu de grandes novidades. Por que a gente é assim?

segunda-feira, 23 de julho de 2007

A Pilha da Esperança e a Caixa Silenciosa


A pilha da esperança está dentro da caixa silenciosa. Mas a caixa foi ao cinema e comigo ficou minha linda sementinha. Faço macarrão, carrego o jogo, chamo a atenção e ele se diverte. Pega na minha mão me chama de pai e brinca com os castelos do imaginário. Sento no chão e brinco. Mais tarde ela chega cheia de enigmas. Lê no quarto a última edição. Aflito dou voltas ao seu redor. Não quero abrir a caixa silenciosa, quero apenas que ela ajude a carregar a pilha da minha esperança.

domingo, 22 de julho de 2007

A Pilha do Mal


Ela energiza a negatividade. Ela parece eliminar o racionalismo. Ela impede a sensatez. Ela irradia confusão, neblinas, cerrações. Ela atrai o desejo pela simplicidade. Ela não é encantadora e nem sedutora. Não é linda nem maravilhosa. Muito menos, inteligente. A clareza se torna inconsequente. Pessoas se alimentam dela. Se deixam carregar por simples motivos. Irrelevantes ou não. Consequentes ou não. Atrapalhadas compram conflitos, cizâneas, intranquilidades. Ela está sempre disponível, basta a liberdade de querer. Não precisa pedir, ela vem. Sem motivo aparente, ela vem. Basta querer, ela vem. Ela não mede conseqüências. Toma conta de parte do ser. Invade o vício oculto da personalidade. Ela é impensável e inaugura a batalha do enigma que cria a história recorrente. Contagia pelo anonimato. A vontade fútil de não fazer nada. Ela desenvolve pela omissão de quem tem de estar presente. Mas um dia a ficha cai. E quando isso ocorre ela descarrega para sempre. E vai embora para outros cantos onde a falsidade tem condições de prosperar. Como se fosse o jogo do objetivo atingido. Te liberta, mano.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Detalhe


A foto é detalhe desapercebido.
Que guarde a lembrança
a visita está marcada para outra hora.
Chega tarde porque está com pressa.
Sai cedo porque tem muito a fazer.
E passou sem perceber pelo detalhe.
Que ficou ali - marcado
captado pela lente de um

segunda-feira, 16 de julho de 2007

Caminhos, Voltas e Contornos



O filme perfeito foi perfeito. A cadeira leva ao topo do mundo, onde se pode ver a vista esplendorosa. O refúgio serve o goulash com spatzle. Dizem que o caldo é bom, apimentado e quente. O primeiro passo é cruzar a parede íngreme de neve. São metros e metros de desafio. A instrutora diz que o medo é uma falsa visão. Há de se olhar para a frente e condicionar as pernas a frear antes de fazer a curva e ziguezaguear até o terreno ficar mais plano. A fobia da visão deslumbrante, acima das nuvens e de todos, toma conta do corpo.



Lá em cima não existe caminho definido. Há apenas a imensidão branca, ampla e extensa, da neve fofa. A vontade de vencer faz o corpo precipitar sem controle de velocidade e direção. Tombo na primeira, na segunda e terceira volta. Não se pode esquecer, medo é falsa visão! Deve-se mergulhar na sensação deslumbrante de deslizar montanha abaixo e tentar, a todo custo, conter a velocidade fazendo voltas e contornos. A máscara amarela que envolve o rosto faz imaginar um filme. Mas os tombos são reais. O corpo contorcido que cai desengonçado entre os aparelhos. É muito difícil levantar. O mundo está lá embaixo aguardando a chegada. Há de se chegar. Esse é o desafio. Esse o emblema.




O tempo passa rápido e - devagar - se consegue vencer o paredão íngreme e branco do primeiro passo. O segundo tempo é barbada. É só seguir a estrada. A mente condiciona o corpo que se torce e retorce nas retas e nas curvas. O joelho se inclina para frear e o deslize é previamente monitorado. Quando as nuvens se aproximam a neblina toma conta do filme real. O vigor frio da montanha na sua intimidade branca. A vegetação encoberta que sobrevive ao inverno rigoroso. É tudo tão silencioso e tão branco no meio da gostosa cerração. Um outro mundo enigmático e desconhecido que desfila deslumbrante acompanhando meu circuito. No meio da montanha se avista os telhados da vila. O objetivo é sempre seguir o definido caminho. É tudo muito mais fácil quando se condiciona. Os obscuros labirintos da mente necessitam de direção. O corpo se prende ao caminho marcado pelas cores da dificuldade. Verde, azul, vermelho e preto. É só escolher a via a seguir.

O iniciante escolhe a verde da simplicidade. É o caminho da estrada de verão, época que as bicicletas sobem o "cerro" que se transforma em cores primaverais. É tudo mais tranquilo nessa fase. O corpo empinado para a frente relaxa atento e desliza como nunca antes havia feito. Basta seguir o rumo da pequena vila passando - incólume - por pedras, árvores e buracos. A neve, mais pisada não é tão mais fofa e o tornozelo sente o impacto do solo mais duro.



Finalmente se alcança a multidão do pé da montanha deslizando de forma veloz e segura. Mais um filme perfeito. Parece estar todo mundo olhando para as manobras e para essa história, mas cada um cuida de sua vida, de seus equilíbrios, de suas máscaras, de seus filmes e de seus caminhos planos e íngremes.

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Filme Perfeito



Não quero falar sobre angústias. Vou subir a catedral e descer correndo deslizando até a estação. O astral deve ser ótimo. Frio, sol e música no ar. O filho começando as aulinhas enquanto as imagens são registradas na câmera de vídeo. Ela é tão bonita e fica muito charmosa com trajes de inverno. Meus óculos amarelados registram os fatos nos arquivos de meu confuso cérebro. Tudo como um filme perfeito.

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Caixa de Respostas


Tento ser transparente em busca da confiança perdida. Não é fácil construir e reconstruir ilusões. A alma não pode ser pintada. Quando o castelo está para desmoronar parece que a areia fica fina demais para a reforma. Muita gente resolve desistir no meio do caminho, porque a mágoa é intempestiva. Volta sempre na hora errada. Quando está tudo muito bem ela chega sorrateira e invade a casa, a alma e a minha cabeça. Tenho de trabalhar e pouco consigo, além do trivial. Penso nisso, naquilo, mas ela está presente no canto do cérebro, palpitando, brilhando e tirando o foco de outras atrações e compromissos. Sem inspiração recuo e fico em silêncio. Não quero traçar estratégias, porque pretendo não racionalizar nessas horas. Meu peito de pura emoção quer dar uma resposta pronta e definitiva. O assunto acabado, finalizado. A busca de um epílogo. O fim da agonia que vai afundar a mágoa e o ressentimento é o que desejo. Mas o fim está próximo e está longe. Não é essa a lógica dos homens. O cíclo vem e volta e não se fecha. Preso no tempo respondo o contexto no texto. Mais um pedido de desculpa. Envio a resposta. Aguardo resposta.

Eu vi


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