Buscando não se sabe bem o quê.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Barba no Rosto


Bah, cara
eu tenho barba no rosto
e não é de hoje
nem de ontem ou anteontem
já faz muito tempo
que eu tenho
barba no rosto
mas só hoje percebi
eu tenho barba no rosto.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Desenho


A mão firme, ainda um pouco dolorida,  abraça  o lápis e os traços são elaborados ou pintados. As cores geralmente são fortes -- vermelho de sangue coagulado, azul de céu de tempestade, cinza de nuvens carregadas -- e todas as mulheres, sim todas as mulheres, estão presas ou encobertas por  formas geométricas ou raízes, como se vê de seu trabalho  mais recente. Não se sabe, porque apenas se comentou sem maiores indagações,  se elas procuram raios de  liberdade ou se são prisioneiras de seu cotidiano ou destino. O curso do trabalho é mostrado on line e os conhecidos tecem seus comentários. Assim o processo é constituído, executado e finalizado. A autora dá um respiro mais fundo, expreme os olhos, como sempre faz ao observar, e toca graciosamente com a ponta dos dedos na  obra finalizada. O desenho é, enfim,  colocado numa pasta e guardado na gaveta da mesa do escritório.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Versões



O fato aconteceu num sábado a noite, talvez tenha sido a tardinha. Não se sabe ao certo, porque as nuvens da memória não se dissiparam da forma como se esperava. Tudo inicou com uma simulação, uma simulação de sono. Bateu a campainha na porta de baixo e ele estava assistindo televisão. Alguém tinha de descer para atender , mas um programa interessante estava passando, talvez um jogo de futebol, um filme de suspense: algo do tipo. Talvez -- e essa hipótese também foi ventilada --  ele estivesse cansado e aproveitou a situação para tirar um cochilo. Talvez, sempre talvez. Ela que estava no andar debaixo subiu a escada e foi nesse momento que a campainha tocou e ele começou a simular o cochilo.

Ele fechou bem os olhos e se embalou suspendendo suas funções corporais, ficou inativo. Repentinamente ele sentiu em sua barriga (um pouco demais inflada) uma mão que lhe tocou exatamente a região do umbigo. Um necessário parênteses: quando ele tinha um ano ou dois ou talvez três ou quatro, uma babá foi contratada para cuidar dele. Não era uma babá boazinha, porque sempre na hora de trocar as fraldas ou suas roupas ela fazia cócegas. E não era uma simples "cósquinha". Era algo meio que -- digamos assim -- torturante. E a pobre criança ficava a rir e chorar numa situação de total angústia.Isso gerou um trauma.

O fato é que no momento em que ela acariciou a barriga dele -- exatamente naquela região do umbigo -- ele fez um gesto brusco de proteção, de puro reflexo, como se fosse um goleiro defendendo uma bola a "queima roupa". E nesse movimento ele acertou ou o braço ou a mão dela. E a lesão não foi pequena, foi bem maior do que se imaginava. Ela ficou magoada com ele. Ele ficou chateado com o acontecido. Amanhã ou depois quando ela ficar boa -- porque sim ela vai ficar boa -- eles poderão até rir do que ocorreu. Mas, por enquanto, ela ainda tem de tomar os  medicamentos contra a dor, suspender as sessões de pintura e literatura e aplicar no local uma bolsa de gelo que queima. Uma grande chateação.

Ele assiste a tudo isso sentindo as dores dela. Ela talvez não acredite nessa versão, mas ele já disse mil vezes que está muito sentido. Falou até mesmo (vejam só) que poderia ceder suas mãos para ela, se por acaso, ela quisesse.

domingo, 28 de agosto de 2011

16



Coringa, coringa, minha insistência
16 cm, ops no dezesseis.
Sim no 16
Ali está a roda da fortuna
o nosso êxito
o nosso grande êxito.

sábado, 27 de agosto de 2011

Transcendência


Passo  a medir um a um
os passos percorridos
como se estivesse na praia
e fico a olhar
cabisbaixo
a minha própria
finitude.

Isso não poderia ser assim
de lado colado
na ponta do pé
como se fosse algo
ou ninguém
um tanto enigmático
um tanto perdoado
como se tivesse a capacidade
de conjugar os verbos

Vejo distante e aprecio
a plataforma iluminada
cheia de...
não sei exatamente o quê
e isso incomoda
me incomoda
porque quero adquirir
as luzes
da transcendência

Vinil


Surabahya Johny, tire esse cachimbo da boca, seu rato! Nunca imaginei, como um dia poderia imaginar. Como poderia prever, como poderia? E o vinil é um encontro com a poesia. As velhas canções do século passado  tocando nos equipamentos de hoje em dia. De hoje em dia. Quanto falta para terminar o dia? E Fagner canta Florbela Espanca. Chico canta João do Vale. O pessoal da Lira Paulistana. A Cida e todo mundo. Eles invadiram meu espaço. Estão aqui comigo fazendo não sei o quê, mas alguma coisa estamos fazendo. Talvez ouvindo discos sentados nas almofadas. Bebendo, fumando, rompendo os prazeres. Que me importa ficar me sacrificando por conta das canções da nostalgia? Eu quero mais é retroceder, fazer todas aquelas transgressões que me poupei. Ainda bem que me poupei e por isso (quem sabe?) estou aqui. Forte e firme navegando na direção dos lemes. Qual deles é o indicativo do meu futuro perfeito? Amanhã tem mais. Ouço o bater das latas, das agulhas que toca o vinil corrompido pelos arranhões. E isso tudo é tão, tão charmoso. Porque ainda não consegui aprender nada na minha cabecinha. E nossos alicerces vão desmoronando. Bate o martelo em meu coração. Sim é prá ti, Cida Moreyra.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Ponto Final



Espero e enquanto espero navego porque navegar é preciso para se manter bem informado porque quem não se comunica se trumbica mesmo que esse alguém seja uma pessoa repleta de enganos que são precisos insignificantes ou até mesmo atordoantes Não sei o que faço agora porque escrevo e não digo nada não pontuo não construo frases não tenho pauta e nem agenda pelo menos por enquanto só me basta dar um ponto final.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Histórias



Eu queria ter ido aquela festa. Para te encontrar. Tomaria "uns drink" e te chamaria de princesa. E você sorriria para mim e me convidaria para dançar. E dançariamos a noite inteira até a música acabar. E, no fim, eu te levaria para casa, no meu chevette, e colocaria uma fita com a tua música favorita. Na frente da porta branca  você tiraria os sapatos  e eu te beijaria antes de te dizer adeus.

E eu voltaria para casa feliz da vida pensando na hora de te ligar e te convidar para  jantar. Você escolheria o lugar. E sairiamos novamente e novamente sairiamos.

Hoje você tem um nome e uma história, assim como eu. Eu sei quem tu és, mas você não sabe quem eu sou.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Mensagem Para Não Perder Espaço




Minha amada me disse ontem a noite que se eu não aparecer no vídeo ela vai me retirar da sua bloglist.

Passei a noite sonhando. De manhã, quando acordei, nada lembrei.

O que posso falar sobre o assunto?

Venho perdendo espaço. Aprendo com os mendigos, os abutres e os delegados, quero ver show, não quero saber de porcaria. Essa zorra na tv, esse domingo no parque, os faustões da vida acabada. Não quero mais nem isso, porque meu gosto, dizem, não é mais eclético, porque eu manipulo e redireciono para as minhas próprias conveniências. Porque assim me sinto grato, limpo e perfumado. Eu me blindo das chatices e idiotices mundanas. Não estou nem ai para o sucesso do Luan. Se a filha do meu amigo sabe todas as músicas eu não consigo aplaudir, porque tento evitar meu próprio cinismo. Não luto para ser autêntico, fato raro no auge dos nossos dias, quero apenas usufruir o conforto necessário e possível. Porque a resposta está dentro de mim. E só eu posso dá-la.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Simplesmente, Não Sei


Já tentei de tudo. O casal que namorou na década de 80, se aproxima no facebook e marca um encontro no encardido Hotel Barcelona no centro histórico. O que acontece depois?  Ele toma uma aguardente, ela fuma um cigarro. Eles discutem o tempo que passou. Estarão eles despidos, vestidos, como estarão? Fizeram amor, sexo, transaram? O que isso importa agora?

Tranquei, meu cavalo refugou, porque está cansado de minhas pernas ansiosas. Talvez ele busque um cavalheiro com nova formatação. A indomável imaginação parece estar ficando sem o necessário combustível. O  carro que resolveu parar  no meio da rua e a multidão enraivescida  começa a buzinar.

Hoje sonhei que estava dormindo e fui acordado pelo meu próprio fantasma. Quando acordei tive a certeza absoluta que não estava morto. Ingressei feliz no toilette, porque tinha o dia todo pela frente. E agora, no fim, resta a minha grande dúvida: como isso tudo vai acabar?

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Recado


 O certo é que não gostei, mas deixei ali para todos verem. Aliás, todos é um tanto de exagero, porque são poucos, muito poucos, os que aqui transitam; ou por alguma causa acidental ou por tolerar a paciência. Não gostei e deixei e fiquei pensando essa semana sobre isso. Não fiquei preocupado, apenas pensando.  Talvez seja a famosa puta velhice a responsável por esse absoluto descaso. Talvez minha irresponsabilidade e despreocupação. Talvez tenha simplesmente esquecido. O certo é que não gostei e mesmo assim deixei.O recado foi dado. Entendam o que quiserem, mas não me internem.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Restos



Os restos, que o gato admira com o olhar cândido, é recolhido pela funcionária  e jogado no saco.
O saco quase cheio é, enfim, atado e levado para a rua.
 O caminhão coletor, no fim da tarde, inicio da noite, passa.

Dois homens que parecem meninos  -- porque não são mais meninos -- com o devido  cuidado,  abrem o saco e despejam seu conteúdo numa caixa maior, muito maior..
A carroça parte devagar, passando pelas ruas da cidade média, em busca dos restos, dos restos e dos restos que sobraram..

Quando tudo chega ao seu limite é anunciada a hora de partir ou de voltar.
Distante, sempre na periferia, onde ninguém percebe,  eles  se juntam e despejam, em harmonia, o resultado da colheita do dia.

O terreno baldio espalha o cheiro forte, onde o compartilhamento é feito  por todos que ali estão.
Cada um busca sua parte, sobrando os restos dos restos, dos restos que ali ficam.

Passando a madrugada o dia surge e o amanhecer aparece repentino, como se nada tivesse ocorrido. A necessária distância é uma forma digna - e limpa --  de evitar o horror de se conhecer.

Os Efeitos



Diante das possibilidades relatadas, inclusive com o risco de vida,  o retorno é quase incerto. Hoje não é mais como ontem. É a fraqueza que insiste em tomar conta dos pés, das mãos, da alma, dissipando, de forma quase absoluta, a força das decisões. O espelho reflete  o olhar contido diante do desafio. E por isso, recluso,  insiste em dormir, em esquecer, em desistir, faz questão de não ler uma linha do texto que está guardado na gaveta ao lado da cama. E a cama é quente, cheia de cobertas, travesseiro macio, o ar está ligado, a vista para a cidade que está ao longe e se distancia quando amanhece ou escurece, porque nada se enxerga, nada se vê, apenas a dificuldade e o cansaço que toma conta das vontades. Sem cicatrizes ou rancores, mas carregando uma dose razoável de amargura diante da situação concreta. Na manhã resolveu sair, seus pés fracos não conseguiram acompanhar o desejo repentino e foi forçado a utilizar uma cadeira, graciosamente emprestada pelo funcionário do shopping. Diante de todos foi empurrado até a ótica onde experimentou um óculos que comprou. A tontura veio repentina e, com ela, a tortura mental e o aborrecimento de não ter mais as aptidões de outrora. Maldita doença que consome os potássios,  ferros, vitaminas e nutrientes e que deixa o ser humano sem força para comprar sozinho uma bala. Porque os pacientes devem ser pacientes, dizem os médicos. Porque a vida necessita de mudança, dizem os parentes - próximos e distantes. O fato é que tudo mudou. E quando a mudança parece ser irreversível, a luta contra o desânimo passa a ser constante e incomensurável. Os remédios e seus mecanismos colaterais, os sedativos, os calmantes e antidepressivos, o corpo que se alimenta das drogas e seus efeitos, as drogas e seus efeitos, as drogas e seus efeitos.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Looking Out For Number One


Os uniformes, as marionetes, os pintassilgos, os lampiões tardios. As florestas, as feras de metal, os ruminantes que colhem os frutos da mangabeira. Perplexo, parado, ilustrando o móvel de madeira quase nobre, cabisbaixo, abaixado, fazendo tudo com o maior capricho ouvindo quartetos ou quintetos de vozes sutis, de cordas transparentes que ilumina a alma como fogo amigo (ou inimigo?). O rapaz vive  momentos de paradoxo e por isso reza firme procurando probabilidades. As auditorias investigam receitas sem ingredientes. O que se pode fazer diante de inúmeras  verdades?

Eu vi


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