Buscando não se sabe bem o quê.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Um Prisioneiro Refém de sua Pena


Pisando em ovos e cheio de dedos ele não pode se transformar num galo. Nem em um corvo. Não pode, também, passar por farofeiro, nem mesmo maluco demais. Ele deve passar longe dos galinheiros e evitar as galinhas -- de coxas gorduchas e pescoço enrugado. Não. Não. Ninguém quer ser o dono do punhal que habita o lar. Nem de férias, nem de licença.


Cada um deve ser como é. Exatamente como manda a alma, com ligeiras imperfeições que podem ser modificadas com uma boa e pacienciosa conversa. Não se pode negar que ela, a alma, foi corrompida pelo equívoco, porque ela foi. É fato consumado. A pena tem e deve ser executada. Ele é o prisioneiro de sua própria falta que tenta (e quer) pagar seus pecados engolindo vários copos de cólera. Mas a pena pode ser fatal e a cólera mata em 36 horas. O corpo fica no chão do silêncio imóvel. As pessoas passam e olham incomunicáveis. Olha o gordo balofo jogado ali no chão!


Vencido pelo cansaço de uma pena não cumprida, o prisioneiro continua a suspirar a procura de uma punição. Vigia de sua própria sorte ele quer cumprir sua pena. Custe o que custar.

domingo, 14 de outubro de 2007

Personagem Banal




Enquanto a espera aguardava na sala ao lado, ele preparava as circunstâncias para o bom negócio. E tudo tinha o seu necessário tempo. O personagem que controlava tudo estava mais calmo e iria pensar nos próximos passos a tomar, a decidir. E poderia ser uma historinha singela, uma dessas que ninguém lembra e, por isso mesmo, ingressa despercebida no fundo da alma e marca seu ponto na memória. E dois ou três anos se passaram e aquela velha imagem - que parecia completamente perdida nos arquivos - volta com força visceral. E era exatamente essa força que o personagem buscava. Como qualquer um que almeja ser bem reconhecido na vida, ele imaginava ter vontade de trabalhar bem e ter condições de produzir obras de arte. No fundo da alma dos negócios era exatamente essa sua grande ambição. Seria ingênuo imaginar que no mundo da arte não existe lugar para os gananciosos. Mas o personagem não fazia esse tipo. No fundo sua alma é boa. Ele percebe bem o sofrimento de todos e se esforça - sim - dentro de suas limitações em resolver os problemas do mundo. Mas tudo fica tão distante quando se trata de assuntos difíceis. E ele retorna a velha realidade de sempre. A espera aguardava na sala ao lado. Não era tempo para pensar em assuntos banais.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

A Eterna Compensação


Fim do dia a fome pega o sujeitinho desprevenido e alimenta forte sua barriga. Pior se for no happy hour do pessoal do trabalho. É chopp e chopp e a barriguinha fica longe, bem longe, de ser tanquinho. Por isso resolvi aderir ao feitiço de Santa Endorfina e faço três vezes por semana aulinhas de musculação. Abdominais para começar, bíceps, tríceps, ombros, costas, pernas para que te quero. E assim vou modelando meu corpinho como se fosse astro do basquete internacional. Mas a verdade não é essa. O chopp, o vinho, o trago e a guloseima continuam presentes no meu cardápio. O velho assalto a geladeira, também. São nacos e nacões de queijo colonial. O adorável parmesão feito nos recantos de cima da serra. Para compensar esses nacões da vida, preparo deliciosas rúculas, alfaces e agriões. e mesmo assim, meu colesterol está elevado, além do normal. E apelo, rezo enlouquecido, para a Santa Endorfina me dar uma força, uma forcinha para mudar meu hábito de vida. Os vícios que a vida impõe são praticamente insanáveis. Os viventes vivem na eterna compensação. Uma porção de batata frita corresponde a duas voltas no parcão. Um gole de vinho tinto, corresponde a 20 abdominais. E assim vai. É tudo muito muito, muito desproporcional. Os medidores, os dietistas, os médicos especializados deveriam inventar novas fórmulas. Vão estudar, desgraçados, criem novos métodos. Sei lá, façam alguma coisa.
(a tela acima é de Edward Hopper)

domingo, 7 de outubro de 2007

Antes das Dezoito e Dez


A estrada que vai para a serra é sinuosa. Ela é estreita e o acostamento é muito curto. A chuva começa a cair fina e a tormenta logo desce. Por um instante, o granizo bateu forte no vidro. E a tempestade passou exatamente no meio da ponte que divide as regiões. Em seguida, o veículo ultrapassou caminhões, carretas, jamantas deixando tudo para trás. Era necessário chegar antes das dezoito e dez. A cidade de cima da serra se aproxima e o hotel era o mesmo da última vez no canto da estrada. O recepcionista foi claro e direto: não temos televisão a cabo. Não houve outra alternativa, deixar as malas no quarto e tomar o rumo do centro. Finalmente, na rua principal está a lancheria Super X que tem tv de plasma. Os torcedores estavam todos esperando. A cerveja já estava rolando. Dezoito e Dez em ponto, hora do pay per view da 20ª Rodada do campeonato.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Escolhas Perversas


O homem branco pegou a Venâncio em direção ao HPS. Parou na sinaleira. Na faixa de segurança um homem negro de bermuda e uma prótese de titânio na perna. Caminhava direitinho, com tênis e tudo. Nem mancava.
O homem branco pensou: se eu tivesse que optar entre perder o braço e a perna, preferiria perder a perna.

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Na cama da noite, o homem branco perguntou para a mulher branca. Se você tivesse que escolher um pecado capital, qual deles você escolheria? Ela, magrinha, disse: a gula. Ele, gordinho, optou pela soberba. Soberba faz um homem não ter amigos, avisa ela. Gula faz o homem explodir de tão gordo, defendeu ele.






quinta-feira, 4 de outubro de 2007

A Multa


Fui multado porque passei a 41 km quando deveria ter passado a 40 km. E a estrada estava bloqueada. Percorri quase 100 km a toa. Perdi tempo, dinheiro e, ainda, fui multado. Vou recorrer a deus para iluminar meus caminhos, porque a justiça dos homens vai ratificar a multa. O Estado está falido e precisa de muita graninha para tocar o elefante branco que ele se transformou. E eu com isso? Ué, passou a 41 e o limite é 40, tem que pagar a conta. É tudo preto no preto e branco no branco. E lá vai mais 200 reais para as burras do Estado tocar a máquina pública, pagar as pensionistas, os aposentados, os salários dos servidores e dos mensalões. E lá vou eu pagar a injusta (ou justa?) conta.

Circunferências


Ele socorre sua própria esperança ouvindo os murmúrios da noite bem escura. O silêncio se ouve forte e não cede para ninguém. A noite é escura mas a sala está bem iluminada. No clarão do fogo ele elabora imagens esperando alguma resposta finita ou infinita. Um calor solitário surgiu no canto da fonte, iluminou o espaço oculto e serviu como regra para todo o sempre. E mais uma vez ele tentou de todas as formas conseguir o objetivo restrito aos bons de alma. Nunca é tarde, pensou. Nunca é cedo, imaginou. Mas tudo corre e tudo cresce num determinado momento. E diante do paradoxo das luzes ele tenta brilhar sozinho no meio de um palco que não existe. Como a vida parece ser breve ele aproveitou para seguir na linha como sempre fez. Algum motivo oculto, não se sabe de quem nem de onde, o impediu de rever as estrofes que ele mesmo fez há muitos e muitos anos. Ele perdeu sua própria memória, não se lembra de nada mais, apenas tem um certo pressentimento de que tudo pode acabar momentaneamente, mas ele está embriagado pela paixão da mesma mulher. A amiga íntima e oculta que está sempre ao lado, aconchegando com carinho sua cama solitária.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Novos, Velhos e Antigos Detalhes


Percebi, hoje, que a vida é mesmo muito mansa. A gente é que se estressa por bobagem.
Pensei nisso porque fui buscar uns papéis que estavam perdidos no mundo das prateleiras e eram documentos antigos de muitos anos, do tempo que eu admirava outros detalhes. E li todos os pensamentos daquela época e pude, afinal, constatar que minha vida era exatamente outra, muito distante da de hoje. Percorri todo esse tempo para chegar agora e perceber -- ainda que não muito tarde -- o colapso de tudo. O sinal está posto e não tenho outro tipo de conexão. O diálogo dialógico transcendente está encerrado comigo mesmo. Ponto final. Alternativas possíveis? Sei lá. Busco, então, mudar minha filosofia de vida, meu status, minha psiquê. Não vai ser fácil, não vai ser não! E lá me vou, por um novo período, à procura de novos detalhes. Novos, velhos e antigos detalhes, mas ainda novos.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Quando tenho Pressa


Passo rápido pela porta branca e a cidade se abre volumosa. O engarrafado olha para os lados sempre atento ao sinal. Nada anda, tudo se estabelece. E o tempo passa e o compromisso é imutável. É aquela hora marcada e, se não chegar, é intempestivo, precluiu, prescreve. Compromissos miseráveis dos nossos complicados dias. Penso na aposentadoria futura. A vida como vaso de flores. Tudo se estabelece e a corrida fica menos cara. Será?
(acima serigrafia de Paulo Amaral)

Quando a Virtude Floresce


A virtude que se vai e se acaba
Não se desanima tão só
Ela acalma o preconceito da fúria
E esnoba o fascismo da pessoa ridícula


Quando todo mundo pensa que ela está morta enterrada
Já chega a primavera - ela brota devagarinho, pequenos ramos de frutinhas
E a casa fica decorada com iluminação de ouro e prata - viva e altiva
O alívio colore o espaço e a vida segue no labirinto das vicissitudes

( A pintura acima é um tríptico, cidade vazia, de Paulo Amaral)


Quando o computador não é teu amigo


Ontem escrevi alguns detalhes sobre um poema que pesquei de outro Blog. E essa notícia já saiu do ar. Irrecuperável. Hoje nada encontrei. Ele simplesmente sumiu. Procurei por todos os cantos e lugares, nos labirintos do meu computador e nada encontrei. Simplesmente perdi. Era um texto sobre amizade que morre e nasce. Sobre o amigo e a amiga que passeiam de bicicleta com a trilha sonora de rain drops keep falling on my head.

Dá uma raiva tão grande quando se perde um arquivo ou um texto no computador. A gente pensa que salva e ele não salva. Ou a gente pensa que ele não salva e essa geringonça acaba salvando. Que raiva!

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Quando o Cotidiano Adormece


Na masmorra mora um homem que fede muito. Ao seu lado está uma mulher vadia que cheira a pão. Na frente dos dois está um guardinha simpático com vasto bigode. Na rua acima anda uma pequena mulher com dentes de ferro a procura de pão com espinafre. Ela leva para casa uma sacola vazia com dentes de anjo. Na casa bela mora o médico. Ele chega em casa muito tarde e a mulher e as crianças já estão dormindo. Do outro lado do país mora um homem sozinho que passa as noites em claro a procura de algo que ele não sabe o que é e que não lhe traz NENHUMA felicidade.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Achismos


Tenho quatorze minutos para escrever algo. Eu acredito na mudança. E nunca é tarde demais. Acho que o amor tranquilo pode acontecer depois da tempestade, assim como os bons frutos podem aparecer depois dos trovões e da chuvarada. É claro que as grandes tempestades podem dizimar a colheita, mas não vamos generalizar. Minha eterna utopia quer me mostrar que a humanidade está onde está por causa do entendimento. É claro que guerras dizimaram pessoas e civilizações, mas não vamos generalizar. Pessoas foram cruéis com outras, se mataram, se assassinaram, se traíram, se magoaram, mas também se entenderam mais tarde depois de uma boa conversa, não vamos, pois, generalizar. Definitivamente não acredito na hiena da Hanna Barbera que dizia: isso não vai dar certo! Pode ser que sim e pode ser que não. Talvez seja tarde demais para dizer essas estrofes, mas é o que eu acho, é o que eu sinto e pressinto. O que quero dizer, apenas, nestes poucos minutos que me restam, é que tudo pode ser resolvido com uma boa conversa e entendimento e o coração pode ser reconquistado com uma rosa vermelha comprada na esquina, não vamos generalizar.

A Porta Branca da Paz


Tudo pode (e deve) acabar em consenso. Acredito na convergência. Sempre acreditei. Posso estar enganado na minha utopia, mas penso que o ser humano, em regra, ele assimila os problemas e caminha na direção do entendimento. Houve guerras, revoltas, tragédias e barbáries, assim caminhou a história da humanidade, mas no fim dos casos a bandeira branca do consenso sempre prevaleceu. Repito, posso estar enganado na minha fé utópica.


E a porta branca do entendimento resolveu meus problemas condominais. Não precisei consultar advogados, analistas, arquitetos, esteticistas e diretores de arte. A porta vai ser branca, porque esta é a cor da paz, do entendimento, da convergência e do diálogo (ainda que imposto).


Ah, suspiro eu, se todos os problemas pudessem ser resolvidos dessa forma, com a bandeira branca da paz! Mas às vezes ela demora a chegar e enquanto ela não chega nosso corpo, nossa alma e nossa mente ficam manchadas pelas cores da amargura, do sofrimento e do desentimento. É preciso superar as fases, penso eu no calor da minha fé utópica. Mas a humanidade e os humanos não caminham de forma instantânea, como um Toddy dissolvendo no leite do café da manhã. Não é assim que funciona. O tempo é o senhor da razão, mas ele demora a chegar. E quando chega pode ser tarde demais. E a gente suspira, sofre e lamenta.


A porta branca da paz chegou em boa hora. Não é exatamente o que alguns queriam, mas é uma cor neutra, básica, forte que não chama tanto a atenção. Mas para quê chamar a atenção?

Eu vi


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