Quando L. ligou eu estava no meio do sonho. Ela disse: J. já cheguei em São Paulo e estou esperando o vôo para Manaus. Te acordei? Sim, eu disse, estava sonhando. Eu, tu e o H. estavamos caminhando perto do colégio quando encontramos o R.C. e a Q. Mas a Q. estava tão pequeninha e o H. tão grande que parecia um adolescente. O R.C. nos disse: achei uma casa parecida com a de vocês para a gente dar uma olhada. Mas eu conheço essa casa, eu disse, olhando para as paredes amarelas e as janelas brancas, até mesmo, quando guri, joguei botão nela, ali na garagem. O R.C. abriu a porta e entramos numa sala desarrumada onde três rapazes dormiam em colchões no chão. Ao lado deles três Iphones. E a L. resolveu dar uma olhada nos Iphones. Eu disse: francamente L. Ela desistiu e entramos nos outros cômodos. Havia uma escada que separava duas salas e mais pessoas dormiam em colchões, ao lado de todas elas, Iphones. De repente apareceram três cachorros, ou melhor: três cachorrinhos que começaram a nos cheirar. Nessa hora me dei conta que estava usando apenas a camisa do pijama e as meias. Estava sem calça e a L. me emprestou uma sacolinha daquelas que os turistas usam para carregar dinheiro em viagem e rapidamente a coloquei para tapar meu pinto. Mas minha bunda continuava a aparecer e L. me deu uma camisa branca que enrolei na cintura. Fiquei mais confortável. Nisso, os cachorrinhos começaram a morder minhas meias. Foi ai que a L. me ligou anunciando que estava em S. Paulo a espera do vôo para Manaus.
Buscando não se sabe bem o quê.
sábado, 19 de março de 2011
segunda-feira, 14 de março de 2011
Onde Foi Que Eu Errei?
O professor disse, na sala de aula, que todos devemos transgredir. Não sabia que ele era ralador, porque no final ele me ralou. Não que eu tenha rodado na matéria, mas porque ele simplesmente me deu uma nota muito menor do que eu esperava. Passei por pouco, mas passei. Mesmo assim, irresignado mandei um e-mail para ele questionando o resultado. E ele não respondeu e nunca me disse onde foi que eu errei. Talvez eu não tenha passado no teste da transgressão, porque, no final das contas, acabei por aceitar quase que pacificamente o resultado.
Carícias
Desperto com a nudez imensa sobre mim. Ela me excita. Tento acariciar, mas não consigo. Volto a procurar, todas as noites eu procuro, nas madrugadas eu procuro. Certas horas fico em dúvida. Em outros momentos tenho absoluta certeza. Por isso - insisto - nunca sei e creio que jamais saberei. Acordo vazio. Tento, mas não consigo sentir o cheiro do tato, o hálito da boca, o perfume dos pés, o refresco das mãos, porque os limites são forças que impedem a troca de nossas carícias. E não consigo mais encontrar minha fronteira.
terça-feira, 1 de março de 2011
Indômita
O jipe se equilibrava nas estradas molhadas e esburacadas do Lami. Nem parece Porto Alegre, comentou Rafael excitado e impressionado com o jeito dela, a maneira como olhava, como dirigia, sua forte determinação. Glória nada disse depois que se encontraram no Ocidente e a única vez que ela abriu a boca foi para convidar para dar uma banda, tomar um drink em seu 'porto seguro'. Era isso o que ele procurava, uma aventura. A estradinha se fechou até chegarem a uma casa escondida. Ela desligou o farol e se beijaram, as mãos acariciaram os corpos e ele notou uma pequena cicatriz na barriga dela. Incomodada, ela disse que aquilo era a marca de um relacionamento equivocado. Sempre determinada ela subiu os três degraus até alcançar a pequena varanda da casa simples de madeira, singela e aconchegante. A sala, a cozinha, o quarto, o banho. Todos os detalhes cuidadosamente arrumados e decorados: colchas de retalhos, bibelôs, uma pequena estante de livros pocket. A cama pequena, mas confortável. Deitaram sobre a colcha, mas não se tocaram. Ela tirou a roupa e ele também. Em silêncio se observaram com olhares atentos. Glória, depois de alguns bons minutos, pegou o canivete que estava escondido ao lado do abajour e mostrou para Rafael . Assustado ele disse: você não vai cortar o meu pinto, né? Ela riu e subiu em cima dele, encostando seus pelos em sua barriga. Excitado ele atiça: vamos, seja fêmea, feroz, suba, monte, mostre o que você sabe fazer. E ela - de canivete na mão - fez.
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
Resistência Repetida
Não sei da notícia que vem do hospital. Desligo o telefone porque hoje não quero saber. Estou cansado. Dormi demais. Deitei cedo. Acordei tarde. Demorei, demorei, demorei para me arrumar. Não quero fazer visitas. Quero ficar sentado no sofá. Não quero assistir a nada, nem a mim mesmo. Não tenho vontade de tomar sopa, nem café, nem sair de casa para passear com o cachorro. Que late aqui ao meu lado porque eu tenho a obrigação moral de levá-lo até a esquina. Tenho de comprar ração. Tenho de.... fazer tanta coisa, mas sinto que não posso, porque estou fraco e tonto e emotivo e suado, porque suo dos dois lados e tenho que cortar os pelos do nariz, os cabelos que correm no pescoço e fazem cócegas, minhas roupas que estão ficando pequenas, as calças que não fecham, os cintos que ficaram curtos, os botões das camisas que se perderam no chão. Minhas lentes de contato que estão sujas e fazem meus olhos vermelhos arder. Fadiga que verte, deriva, expele e toma conta. Sinto frio, sinto calor, sinto falta dágua. Bate o telefone que desliguei. Está na hora de sair. O cachorro que late em busca de comida. Minha resistência no limite. Atendo. Finalmente, está tudo bem. Percebo que o dia está bonito, a manhã clara é sempre uma nova sensação de desafio. Procuro a chave que abre a porta. O cachorro abana o rabo com toda a força.
Rumo Próprio
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
Aviso
Não me dêem ouvidos. Não sigam os meus conselhos. Esqueçam tudo o que aqui está dito. Minhas receitas são únicas e exclusivas.
Não percam seus preciosos tempos na tentativa inglória de desvendar minhas artimanhas subjetivas. Tudo isso aqui pode ser o veneno da má companhia, Nunca brinquem comigo.
Isso pode ser uma notificação, uma interpelação, um aviso.Não venham cobrar, depois, que não sabiam de nada, que foram surpreendidos pelos cantos das sereias, que não havia nenhum Ulisses por perto amarrado aos postes da perdição.
Se por acaso sofrerem prejuízos incomensuráveis, não venham reclamar de quem avisou.
Compromisso
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
Por que Blogueamos?
Porque gostamos de nos exibir, porque "nos achamos", porque nos consideramos "os caras", porque temos necessidade de contar histórias, de dizer alguma coisa para alguém, qualquer alguém ou ninguém. Porque tudo e nada é a mesma coisa. Porque gostamos da nossa vida privada, mas tem horas que "enchemos o saco" dela. Porque somos sempre ambivalentes. Porque a vida é processo dialético neste mundo contraditório. E sempre nos deparamos com as testes, antíteses e sínteses. E somos obrigados -- ou não -- a fazer certas escolhas e opções. E no meio de toda essa angústia temos vontade de abrir a boca. Dizer a todos ou a ninguém porque estamos aqui, o que sentimos, as fotos que tiramos e admiramos, as músicas que gostamos de ouvir, o que gostamos e o que detestamos, as prosas, as poesias e as nossas vãs filosofias. Acho que falei demais ou, talvez, de menos.
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
Certas Percepções Difíceis e Complicadas
Percebi - hoje - que tenho medo de ser rejeitado. Que nunca gostei de receber um não. E por isso tenho uma preguiça imensa de realizar meus objetivos. E, por isso, eu sempre digo: é muito dificil, é muito complicado.
Percebi- também - que meus pares também têm essa mesma fobia. E nossa família, por conta disso, nunca teve uma discussão sincera. E assim fomos educados. Assim foi minha vida - até hoje.
Percebo - no entanto - que não vai ser fácil modificar o que até hoje ficou estabelecido. Tenho de transgredir, de violar meus limites, colocar o tom da minha voz acima das minhas fronteiras. E tudo isso é muito complicado. Tudo isso é muito dificil, porque estou viciado nesse forma de gestão de vida, nessa filosofia que está impregnada e infiltrada no coração de meu ser.
Percebo - apesar de tudo - que posso evoluir pelo simples fato de que percebi. Posso sim ser rejeitado, posso sim receber um não. E quando isso ocorrer não tenho de ficar cabisbaixo, abatido, humilhado. Muito pelo contrário, tenho de manter a cabeça erguida e partir para outro desafio. Pois assim a vida é. E ela continua.
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
Intricado
Se algum tempo sobrevivi diante de tantas agonias é porque meu riso não comporta mais lágrimas. De agora em diante quero rir e sorrir sem contemplar os arcabouços que ficaram para trás perdidos em algum espaço da minha narrativa. Não, não quero mais perceber que não sou tão forte assim. Posso me tornar impietuoso, arrebatado, inclemente. Não posso ser mais ouvidos, tenho de agir e agir logo, porque senão eu perco meu perigo. Não me subestimes, porque minha capacidade está muito além da minha loucura, dos meus devaneios, trancada no quarto das minhas obras primas. Enquanto ouvia os soluços retumbantes das reclamações deixava para o além os desafios mais importantes. E perdi tempo com isso. Agora que estou velho como o diabo minhas forças parecem tão enfadonhas. É porque elas estão viciadas, porque sempre fiz tudo no mesmo ritmo e só consigo dançar a mesma valsa que sempre me embalou. O cansaço entretém o corpo afunilando-o com seus braços sempre fortes. Não temos chance de resistir, mas resistimos. E por isso corremos até o fôlego acabar e quase alcançamos a última esquina, onde o milagre pode aparecer e nos levar fora daqui.
Sede
Cai a gota
que enxugo
enquanto suo
a carne que expele
o líquido do corpo
que corre
na sobrancelha
e se derrama
em frente aos olhos
ninguém percebe
porque não é para perceber.
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
Sombras de Dúvida
Vagueia sem motivo por alguma rua sincera. O suor corre o rosto, enxarca a camisa social, porque é quase 40 e a luz solar no sul deste país é mais forte do que no norte. As casinhas conjugadas vão passando, uma a uma. Portas abertas, janelas fechadas, a mulher negra que fala ao celular apoiada na grade da sala de estar. O rapaz ouve o rádio no Fiat estacionado na mesma rua. Todos querem saber se ele vem ou não vem.
E ao chegar na grande avenida o calor é mais forte e intenso. Procura uma sombra, uma árvore qualquer, um grande arbusto, uma marquise, o que tiver de proteção. A casa chinesa anda vazia, as porcelanas estão penduradas na mesma vitrine do ano passado. Nada mudou por ali. No posto de gasolina poucos carros estacionam, a locadora está fechada e os sorvetes estão à disposição na loja de conveniência. A música toca, mas a notícia aguardada é saber se ele vem ou não vem.
O condomínio de luxo que foi erguido não faz muito tempo está desbotado. O opaco padrão neoclássico deu lugar às manchas escuras que a fuligem do tempo deixou. O destino final está próximo porque o portão do prédio de granito esverdeado se abriu. Neste ano, o porteiro do prédio não é mais o senhor simpático que faz sempre a mesma pergunta todos os dias da semana. Algo mudou por aqui. No elevador o casal esboça um pequeno beijo interrompido com a presença de um novo passageiro. Todos se olham no espelho antes de subir. Eles querem saber se ele vem ou não vem.
sábado, 1 de janeiro de 2011
Noite
Podre
de tanto amar
no lençol de cores fortes
a marca do calor da ambição
emoção quase impertinente
que simboliza
a vitória da ganância.
Dorme sincera
quase sem defeitos
nem marcas ou sinais
sem passados de angústia
ou dores de ressentimento
Por tanto tempo cobicei
apenas por cobiçar
e agora, no entanto,
sinto confuso
porque nada posso fazer
a não ser acompanhar
o silêncio de um sono
interminável.
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