Buscando não se sabe bem o quê.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Sobre Missões e Retalhos


Minha missão era apagar as luzes, mas encontro no caminho um nervo. Como se fosse um bife com nervo, com muito nervo e a empreitada do cirurgião é afastar o nervo. E assim procedi com muita perspicácia e determinação. Deixei o prato limpo, afastei a gordura de todo o resto e tentei seguir a missão, mas era tarde demais. Deu branco e não lembrava mais o quê, afinal, eu estava fazendo ali, naquele lugar, naquela hora.


Descansei o vinho por sobre a mesa e olhei na janela a procura de alguma sensação inusitada que pudesse servir de objeto para o meu trabalho. Visualizei, por incrível que pareça, uma modelo. Ruiva, pele bem clara e olhando para si, como se estivesse se auto-admirando. Ela tem uma pele super limpa do tipo que nunca pegou sol na vida. Sorvi um gole de vinho e fiquei admirando a bela imagem até que um felino se postou exatamente na frente da modelo.


Recebo a mensagem no celular, não se trata de uma chamada comercial para trocar o aparelho por um novíssimo com mais de cinco utilidades. Era uma mensagem estranha de um número que eu não conhecia e que não estava cadastrado no meu aparelho. Dizia a mensagem que o Tuco deveria fazer sorrir uma Chica. Fiquei pensando qual o significado de tão inusitado recado..


Ela me chama com voz rouca da gripe que pegou. Já é hora de apagar as luzes e agora lembro que era exatamente essa a minha missão, mas estou aqui preso na mesma máquina tentando terminar esse negócio. Minha rotina heterodoxa me ajuda a contemplar os casos que conto, mas têm dias que são outros e que o silêncio é mais do que necessário. As horas que passam deixam a sensação de algum dever cumprido. E lá me vou apagar as luzes da boa rotina e me encontrar com a chama viva daquela que me incendeia.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Mijada



Entro no bar lounge mais famoso da cidade e a garotada está toda ali. Eu, o velho decadente e desengonçado, cheio de nenhum charme, dotado de uma pança razoavelmente enorme no meio de toda aquela gente bonita, bem vestida e chique, mas não estou nem ai. Eles me olham com cara de desprezo e eu não estou nem ai. Eles me detestam, me odeiam e eu não estou nem ai. Vou até o balcão todo decoradinho, cheio de picuinhas, onde o tiro funciona mais rápido e peço a cerveja mais barata da casa e para abafar dou uma risada forte e muito expressiva. Tem gente que gosta. Quero mesmo é aparecer para esses merdinhas filhinhos de papai e suas princesinhas com bolsinhas de tigrinha. O rapazote, vestido de pirata, que atende no balcão me olha fixo e encaro ele com cara de muito bravo. Com minha voz forte e detonada reclamo: qual é a tua mané, serve essa merda logo. Eu sei que todo mundo me olha e estou aqui para isso mesmo. Nenhuma princesa ou plebéia nessas bandas daqui vai me querer e estou aqui por isso mesmo. Quero é beber e aparecer. Não conheço ninguém, ainda bem que não conheço ninguém, quero beber e aparecer. Depois da segunda, da terceira, da quarta cerveja dá uma vontade louca de mijar e vou direto ao banheiro. A porta do toilette está fechada. Para variar, alguém ali está fazendo o que eu gostaria de fazer. Bato forte, mas forte mesmo e berro bem alto para o bar inteiro ouvir: Caga logo essa merda! Mija logo essa porra! E a porta não abre e o mal educado sequer responde do outro lado. Isso me irrita profundamente. Fico denso e grito de novo: quero mijar e quero mijar logo, abre essa porra. O bar inteiro me ouve e eu sei que o bar inteiro me ouve e por isso eu grito ainda mais alto, mija logo essa porra e abre essa porra dessa porrrta.
Não sei exatamente o que aconteceu depois. Foi tudo muito rápido e muito instantâneo. Primeiro eu senti uma puxada e depois fiquei deslocado e completamente paralisado. Alguém sabia muito, mas muito mesmo as artes do judô, do caratê ou do escambau. E eu ali naquela situação ingrata, morrendo de vontade de dar uma bela mijada, mas completamente paralisado na minha ação. Alguém me agarrava com muito jeito, eu até poderia dizer e afirmar que o carinha era craque nas artes marciais. Não tinha outra opção senão gritar e berrei: pára, pára e pára tudo.
Um desconhecido com voz bem mansinha e calminha encostou a boca no meu ouvido e foi logo dizendo bem devagarinho, parecia que estava soletrando: eu sou o inspetor, não gostei dos teus modos, ninguém mais te quer aqui, vou te levar lá para fora e não vais mais voltar. Fique longe daqui, aqui ninguém te quer. Empurrado, paralisado fui vaiado por todo aquele bando de bunda moles. Humilhado fui jogado para o lado de fora do estabelecimento.
E lá me fui madrugada adentro para outras paradas. Antes de começar a banda, porém, no escuro da noite, na primeira parede que encontrei dei uma bela e boa mijada. Relaxado pensei antes de seguir viagem: como é bom mijar essa porra.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

A Ruga


Aspera ruga que no canto do rosto enruga. Apertada, exprimida, inchada ela aparece. Pó, muito pó, cremes, sabonetes e pomadas é preciso esconder. Criam-se maquiagens, tatuam-se aparências, aplicam-se soluções, mas ela continua ali, sempre ali, expressiva, insolente, camuflada chamando a atenção. E quando se acorda na manhã seguinte ela está ali exatamente no mesmo lugar, inflamando o mesmo canto do rosto que o espelho reflete. Simplesmente tu. Pó de tomate, repolho em calda, sabonete de giz, hálito de cobra nova, sangue da primeira menstruação. É preciso - dizem - ocultar os sinais da velhice e criar novas miragens. Resistir é preciso. É preciso resistir.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Lady Nalva


No dia do padroeiro ela está em Copa. Circula bem apertada de sapato novo, toda engomada, vestida de dourada. Misto de fascinação e desprezo. Basta ter paciência, dedicação e equilíbrio. E lá vai ela de mãos dadas com o estrangeiro de bermuda e chinelos inusitados. Engoliu duas doses de martini doce e chupou todas as cerejas. Meio alta ela caminha tonta na direção das curvas tortas da famosa calçada. Ela delira e começa a rir do sotaque esquisito do macho que aquela noite encantou. No alto do último andar de um bom hotel da orla ela enxerga a cidade: iluminada, movimentada, cheia de energia como ela. São tantas as estrelas, as luzes, as cores, as formas, os momentos, as alternativas e os vícios que ela nunca consegue deixar de desafiar a si mesma. Impossível, completamente impossível, largar tudo isso como quer algum lado seu. Melhor assim do que antigamente. Pelo menos essa vida naturalmente perigosa se torna um pouco mais divertida.
*foto de André Arruda do Ensaio uma Outra Copacabana.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Ciclos




És tu, apenas tu, nada mais do que tu
olhos deslumbrados - amadurescidos
os trigais, os lirios, a natureza sórdida
todo o tipo de romantismo chique
que se vai com toda a sorte de artefatos e versos
mesmo que seja incompreensível, mas bonito
tão lindo como o riso maroto do nosso filho de olhos bem pretos
envolvemos na nossa mesma curiosidade - sorrimos alegres
depois de um dia cansado, onde a tarefa sempre exige
afinal, se busca coincidências, semelhanças, amenidades
pequenos seriados que nos divertem nas horas a sós
perplexo ficamos quando atingimos o mesmo espaço de tempo
prelúdio curto que antecipa a mesa que serve e nos serve
o festival de cálices, da comida que floresce perto da casa
retornamos a ela com sentimento de dever cumprido, de missão inacabada
amanhã é outro dia da vida que continua para abrir as trancas dos labirintos de um ciclo continuo, suave e apaixonado.


quarta-feira, 9 de abril de 2008

Burrices






A falta de espaço, de modos, de métodos. Por isso eu digo, isso se chama burrice. Destino torto de quem apenas tem a tarefa de diminuir autoestimas. As máximas que se ouvem pela redondeza são levadas a sério pela meia dúzia de sempre. Mas eu não entro nessa e digo sempre o que vou repetir agora: isso se chama burrice. E daí, você pode me perguntar e eu não vou me importar. Pois é, e daí! Eu vou te responder com certa satisfação. O caminho da roça não está ainda definido, todos dizem. Eu não acredito nisso, porque sou teimoso. Sou curioso e não aguento lamúrias por qualquer coisinha. Quero espaço, encontro modos, arranjo métodos. Sei lá, dou um jeito, faço alguma coisa e não gosto de ficar parado, chorando no meio da rua dando xeque-mate em mim mesmo. Sou meu próprio desafio, meu anjo dourado da guarda e quando ele vai embora arrumar outras casinhas eu digo a ele, com minha grande cara de pau: isso se chama burrice.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Ponto e Vírgula



Que se dane tudo, inclusive o time que perdeu a partida no campeonato; o jogador que não encontrou as pernas; a torcida que violentou a guria; a menina que caiu no telhado deu dois suspiros e depois morreu; a madrasta e os maus tratos da vida; a omissão do pai ocupado com outros afazeres; a prisão decretada pela autoridade policial; é tarde. Vamos trocar o disco; o assunto anda mórbido e aqui está muito escuro - não consigo encontrar mais os pingos nos is, as crases nos as e o ponto e vírgula no obscuro teclado.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Ontem


Minha como nunca antes
pura de ternura intacta
queixo do porão da noite
luz opaca que encobre corpo
suspiro que abraça mãos
veias que pulsam quando percebem
risada sapeca gemidos nobres
brilho curto saudável da pele quase branca
abraça o ventre a procura de algo
percebe tudo como se fosse nada
enquanto encantas a noite de ontem
* imagem: trabalho de Lucy Figueiredo

quarta-feira, 19 de março de 2008

Do Outro Lado


No semaforo das luzes apagadas o pequeno carro escuro atravessa a grande rua exatamente às três da manhã. No prédio de apartamentos que fica exatamente naquela esquina, o porteiro ouve a rádio a espera da música que sua nova namorada prometeu oferecer. Enquanto isso, o celular toca e ninguém atende. Quem está do outro lado ou está ocupado ou está a dormir.

Insiste. Disca. Ninguém atende. Preocupada, ansiosa, fuma. As horas, altas horas. Minutos que não passam. Agasalhada, no terraço da janela ela olha. A rua lá embaixo. Está presa no mundo de sempre. Ninguém passa, muito menos o carro que ela tanto espera. Já era hora de chegar, traga. Já era hora de chegar, quase... chora.

Depois das horas, na encruzilhada de tudo - todos sentem que a noite cheia de ânsia passou devagar. A calmaria, enfim, chegou no pequeno contexto. O porteiro, enfim, pode pegar o ônibus para a periferia da grande cidade. Estava chateado e preocupado. Não recebeu a mensagem e nem ouviu a aguardada música. Eram exatamente seis da manhã, hora de terminar o dia de ontem. Muito antes disso, o pequeno carro que cortara a cidade havia chegado ao seu destino para a alegria de quem ansiosamente esperava. O nervosismo da madrugada, a ansiedade da noite mal dormida embaralharam os números e as idéias. Quem estava do outro lado não estava dormindo e nem sossegado, muito menos acordado. Quem estava do outro lado, simplesmente não existia.
*foto de Orlando Souza

sábado, 15 de março de 2008

Oblíquo


Desengate, desengancho, desânimo, desanimado, desespero, desjaulado, desidratado, déspota e desobstruído.

Muito claro ainda que não fosse claro só pode ser tudo que não fosse nada.

Ponto final de exclamação, interrogação, vírgula, ponto e vírgula. Enchendo linguíça no acampamento.

E com toda a sorte do mundo ele parece viciado nas mesmas coisas de sempre

Não se dá conta de que algo mudou e que seu pensamento continua obtuso e oblíquo.

E assim passam los dias. Passam las noches. Passam las calles. E assim passamos nosotros.

sexta-feira, 7 de março de 2008

Impasse


As forças conspiradoras chegaram até meu convento. Estou ilhado (a). Preciso comunicar meus recados para a madre superiora. Ela vai ser sensata e entender a minha estratégia. Não tenho muito tempo para dialogar. A conversa vai ter de ser rápida. Bem rápida. Eles são espertos, estão espertos, sabem das minhas manhas, estão atrás das minhas pegadas. Ela vai ter de entender. Não tenho mais tempo, minhas forças estão cansadas. Durmo preso (a) ao cobertor, não preciso de navalhas. Não quero armas nem nada. Confio no que vou dizer. Talvez ela entenda, talvez não. Talvez ela desvenda o meu segredo e faça a entrega da minha mercadoria para a camarilha. O comando geral sabe exatamente onde me encontrar. Por que eles não chegam? Por que eles demoram? Só me resta abrir a reza do fim da tarde. Onde todas vão se encontrar e orar para o Deus divino. Eu sei que tudo isso é muito arriscado e que pessoas esperam por mim. Mas está na hora de abrir a boca e devo fazer isso enquanto existe, pelo menos, algum tempo.
*foto de Rodrigo Albert

quarta-feira, 5 de março de 2008

Resultados







Estamos todos estúpidos. Enfeitiçados estamos. Hipnotizados somos. E daí?

Minha diversidade antagônica alimenta minha nobre arte de implicar.

Pegar no pé de quem gosta, adora, ama acreditar no que não se deve.

Como se disse numa música dessas: o certo é saber que o certo é o certo.
E por dentro de minha certeza espio todos os detalhes como se fosse o inspetor curioso.

Que perigosamente se antecipa sem notar o sentido importante do detalhe pequeno e... significante.

Meu significado é o imperativo categórico da minha própria arrogância - motivo único para que muitos queiram compartilhar o motivo do meu mal.

E no dualismo hipócrita de nossos dias eu escolho o caminho da divergência da razoabilidade, como se fosse o certo medir tudo pelo compromisso da proporcionalidade.

A aritmética da certeza e da lógica inquestionável foi para o espaço e fiquei a ver navios diante de uma escolha simples, mas perigosa.

Contudo, diante de todos os fatos - eu reflito. De que adianta gastar palavras e letras, gritos e sensibilidades, resultados e omissões se o conflito interno é iminente?

Passo os dias a solucionar meus próprios equívocos absolutos, sonhando com resultados apagados, com dias de amor próprio, com escolhas felizes que fiz diante de todo o impasse do cotidiano.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Rio Grande


As vozes que cantam
fazem cena
viram espetáculo
dizem luzes
lugares foscos
do maquiavélico maniqueísmo
tremenda chatice
Grande Rio Grande
berço da divisão
que gosta de beber o caldo
oco do discurso opaco.
foto de Luiz Eduardo Achutti fotografando Iberê Camargo.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Horror de Conhecer


Quem sabe um dia isso tudo possa funcionar mais perfeitamente. Assim como relógio da ante-sala de um velho caduco que acerta sempre as horas, na manhã, na tarde e na noite. Não quero cucos, nem ponteiros adormecidos, não quero mãos dormentes apontando as horas e confundindo as coisas, como sempre ocorre. Não sei bem o que eu quero. Não sei porque escrevo essas coisas. Prefiro assim do que assado. O que posso fazer? Não pergunte para mim, porque aqui só vais receber respostas: sinceras e insinceras. Tanto faz, tanto fez. E um belo dia, quando tudo isso passar e o passado tomar o lugar do presente vamos discutir tudinho, ponto por ponto, item por item e nada vai poder passar. Vamos ter de perceber tudo, o inesgotável tudo, o insustentável tudo, o intempestivo tudo. Porque as pessoas gostam de ser tão perfeitas e ficam impacientes quando se olham no espelho e enxergam a ruga da noite mal dormida, do dia de porre, da cara amassada pela desilusão da idade tardia. É melhor quebrar todos os espelhos do mundo e começar tudo do zero, do nada, do absurdo, até nada sobrar. E depois quando tudo estiver zerado e o nada tomar conta do tudo, vamos juntos sonhar o inconsciente, o inconsistente, como jogo de palavra maldita.


*foto de Boris Kossoy

Eu vi


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