Buscando não se sabe bem o quê.
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
Sede
Cai a gota
que enxugo
enquanto suo
a carne que expele
o líquido do corpo
que corre
na sobrancelha
e se derrama
em frente aos olhos
ninguém percebe
porque não é para perceber.
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
Sombras de Dúvida
Vagueia sem motivo por alguma rua sincera. O suor corre o rosto, enxarca a camisa social, porque é quase 40 e a luz solar no sul deste país é mais forte do que no norte. As casinhas conjugadas vão passando, uma a uma. Portas abertas, janelas fechadas, a mulher negra que fala ao celular apoiada na grade da sala de estar. O rapaz ouve o rádio no Fiat estacionado na mesma rua. Todos querem saber se ele vem ou não vem.
E ao chegar na grande avenida o calor é mais forte e intenso. Procura uma sombra, uma árvore qualquer, um grande arbusto, uma marquise, o que tiver de proteção. A casa chinesa anda vazia, as porcelanas estão penduradas na mesma vitrine do ano passado. Nada mudou por ali. No posto de gasolina poucos carros estacionam, a locadora está fechada e os sorvetes estão à disposição na loja de conveniência. A música toca, mas a notícia aguardada é saber se ele vem ou não vem.
O condomínio de luxo que foi erguido não faz muito tempo está desbotado. O opaco padrão neoclássico deu lugar às manchas escuras que a fuligem do tempo deixou. O destino final está próximo porque o portão do prédio de granito esverdeado se abriu. Neste ano, o porteiro do prédio não é mais o senhor simpático que faz sempre a mesma pergunta todos os dias da semana. Algo mudou por aqui. No elevador o casal esboça um pequeno beijo interrompido com a presença de um novo passageiro. Todos se olham no espelho antes de subir. Eles querem saber se ele vem ou não vem.
sábado, 1 de janeiro de 2011
Noite
Podre
de tanto amar
no lençol de cores fortes
a marca do calor da ambição
emoção quase impertinente
que simboliza
a vitória da ganância.
Dorme sincera
quase sem defeitos
nem marcas ou sinais
sem passados de angústia
ou dores de ressentimento
Por tanto tempo cobicei
apenas por cobiçar
e agora, no entanto,
sinto confuso
porque nada posso fazer
a não ser acompanhar
o silêncio de um sono
interminável.
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
Subversão
Dispomos de alguns minutos. Nada além disso. Até lá teremos de nos desarmar. Temos pressa no meio dessa desarrumação. As habilidades necessárias foram esquecidas, as senhas foram corrompidas, nossa memória se apagou, insistimos em esquecer tudo aquilo que pode nos ajudar. E não podemos - porque não sabemos mais - consultar outras fontes. Temos de aguardar o inevitável desfecho. Sem dores, mágoas ou rancores, porque certas metas não foram atingidas. Não sentiremos maiores aflições, porque o corpo é apenas matéria e o espírito está comprometido com os valores universais da infâmia, nos alimentamos dos fetiches da bolsa de consumo. Buscamos alguma forma de razão, mas não conseguimos encontrar nada além do mais banal sentimento. E assim eu te dou a minha mão e você pode pegar o que quiser, porque nessas horas a vida deve correr.
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
La Différence
Pensa, pensa, na ausência, na presença, no espírito vivo do corpo que abraça o teu, até adormecer e acordar com aquela estranha faixa de luz que nasceu para se fixar na direção dos teus olhos. Já é manhã de algum dia que pode até ser chuvoso.
As pálpebras que protegem os olhos mexem e remexem, não é mais sonho, sono, tampouco um rápido movimento, a excessiva claridade incomoda e faz acordar, os olhos quase que fechados começam a espreitar o quarto desarrumado, algumas almofadas e roupas intimas estão no chão. O sapato descansa sozinho perto da porta ao lado de uma cueca vazia e isso pode ser extremante irritante.
Foi para algum lugar, algum recanto de mundo, pode ser um parque cheio de árvores roxas, onde é sempre agradável o passeio de bicicleta. Pode ser uma sala vazia, mas com gente olhando como se fossem acusar. Pode ser, pode ser, pode ser.
Nunca se sabe a realidade dos outros. O que eles estão fazendo agora quando se espreguiça com tamanha lentidão. O que se sabe é o que imaginamos e muitas vezes, por isso, nos enganamos, porque somos diferentes. Os pés ainda estão dormindo, dormentes eles são espichados e mexidos, a cama está quente e lá fora está um forno. Todos já saíram e o dia apenas começa.
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
Existência
Os Réus ouvem atentamente os nobres discursos da boa oratória. E quando eles se autoelogiam a platéia aplaude, porque isso é importante para o ego geral. São as normas de conduta, do bom comportamento, dos homens e cidadãos de bem. E sentado no meio de tudo, o ser crítico, anota no coração de sua cabeça os detalhes que afloram no meio de toda aquela homenagem. É tudo muito bonito, as emoções são extremamente fortes, sobretudo tendo em vista a complexidade (e a gravidade) daquele momento. Gotas de choro caem sobre o tapete vermelho pisado por sapatos de luxo comprados a preço de banana no mercado universal. E todos estão preocupados com a situação crítica das contas do estado leviatã que adora comer as vísceras dos réus. E aplaudimos contentes -- porque esse é o nosso dever -- as imagens que nos são passadas e repassadas por seus agentes. A res publica não pode ser objeto dos interesses dos grupos privados. Nosso país precisa de transparência. Temos de lutar contra a corrupção, esse é o nosso dever, nobre deputado, ilustre juiz, autoridades aqui presentes. Vossa Excelência esconde dentro do bolso o sorriso amargo da contradição. Enquanto isso, sentado na oitava fila, o ser crítico fica pensando na vida, na sua existência, no que fez até aqui, no que fará no futuro que está tão próximo. Ele simplesmente não sabe, porque a crise que assola todo mundo, não deixa nenhum espaço para soluções imediatas. Ele deixa a vida passar e por isso aplaude -- como todos os outros réus -- os discursos contundentes e emotivos das autoridades.
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Sensação
A boca que toca
suavemente
na cerâmica trabalhada
no desenho da borda
em toda sua espessura
e sente o calor
do líquido
e do aroma
que faz lembrar
algo esquecido
na infância
primeira
segunda
ou terceira.
Terapia
A angústia deixou para trás, porque passou 42 minutos no divã da terapeuta, da psicanalista ou da psicóloga onde aprendeu a olhar mais para si, apenas para si, somente para si. E saiu do prédio com a sensação esquisita de leveza. E foi para o trabalho e trabalhou. E foi para casa e conseguiu se divertir. E no final da noite pensou duas vezes antes de dormir. E conseguiu dormir até o dia seguinte quando se levantou, tomou o café e se dirigiu ao trabalho. E quando lá chegou sorriu um sorriso tão forte e intenso que parecia algo cínico. E ninguém acreditou naquele riso.
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
Casa no Litoral
Perdeu a vontade de ser curioso. Olha pela manzarda esticando o pescoço que doi. Passa a mão seca e áspera onde sente a dor. Não é nada. Nunca é nada. O mar hoje está mais revolto do que ontem. Já é tardinha. A imensidão do vazio toma conta do vento que sopra forte em direção ao norte. A água cospe. O vento chia. Não existe aconchego no frio daquele lugar. A sopa quente de pacote é preparada no velho fogão duas bocas. Depois, caminha de chinelo curto e chambre longo até a varanda. Carrega consigo, também, o pijama rasgado que sobrou do armário da cidade. No apartamento da rua das Alamedas, no bairro nobre da capital. .São poucos os passos, mas novamente se encachaçou e por isso se equilibra como pode. Chega onde pensava chegar. Mas se esquece. Por que, afinal, estava ali? No jogo da memória aparece a velhice, mas não se trata disso. Ainda está na meia idade. Já fez história no serviço público estadual e um dia foi chamado de assessor especial do Procurador-Geral. Agendava com ele as reuniões com os sucessivos governadores, administrava os relatórios, corrigia a concordância e os erros de português. Foi antes de perder tudo. Quando o partido de oposição conseguiu vencer a eleição por apenas dois pontos. Depois de anos foi exonerado sem direito a aposentadoria ou pensão. Sobrevive numa casa sem espelho e sem notícia de jornal.
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Água Boa
Água boa pode ser morna
Pode ser fria
Pode até ser bem quente
Mas sem danificar os cabelos
Água boa é que molha o corpo inteirinho
e faz a gente suspirar
de prazer
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
Líquido
Fiel
Vá, vá e faça tua escolha. Seja franca, não redirecione, apenas encaixe as peças, como se fosse um cubo mágico e tudo pode ainda voltar ao normal.Não subestime a natureza dos outros e nem a minha, porque tudo pode ficar bem, mesmo que de forma esquisita. Vá e volte ou vá e não volte, mas vá.
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
Quando?
Ela abraça o aparelho porque está com saudades da voz.
A voz que ela mesmo esqueceu, porque não se lembra mais.
Do timbre, da colocação, da postura.
Mas ela espera, porque ela sempre esperou.
Porque assim a vida ensinou.
E ela se posta na cama adormecida a espera da ligação.
Que nunca chega e nunca vem.
A manhã aparece e o equipamento está sem bateria.
E ela recarrega ainda esperançosa.
Que ele algum dia ligue.
Perspicácia
Minha cegueira imensa, vazia, curta. Entra em mim e se apodera de todo o meu corpo. Quem dera um dia eu poder escapar de tamanha insensatez. Eu, um ser ingênuo, pobre e incapaz que cai na armadilha criada pela minha própria imagem e semelhança. Como se fosse um pequeno deus tonto, perdido em alma, em razão, em sentimentos baratos conquistados nas vidas diúrnas e noturnas. Por entre porres e bebedeiras, compromissos e reuniões. E assim me divido, e fico caminhando em contraste, deixando de assumir os meus próprios paradoxos.
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