Buscando não se sabe bem o quê.
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
José de Alencar
Minha doce amada
ficou uma fera comigo
por conta do
vejam só
José de Alencar
Por que o espanto?
perguntei eu
cansado ao chegar em casa
ela nem me respondeu
e me mandou
plantar coquinhos
Foi o que foi
numa livraria de cidade grande
ela fez o check in
e eu serelepe
louco de implicante
anotei na agenda geral:
estás a procurar o último capítulo
do José de Alencar?
De fato
ela não gostou
até odiou
e uma fera brava
não pode ter ódio no coração
Ao anoitecer
na hora do passeio do cão
que senta manso
ao lado do banco de boteco
ela sorrateiramente
no conforto da casa
apaga toda essa história
Pronto
nada existiu
a não ser
este poema torto
feito
de forma
unilateral.
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
Amor no Coração
Dezoito e dois
Tá na hora de sumir
de fugir
de dormir.
Não sei o que faço
Se vou para um lado
ou para o outro
Perdido estou
O que posso fazer?
Talvez me dê na telha
e consiga transcender
uma arma no escuro
um tiro na garganta
do impostor.
Mas nada disso consigo
porque sou do bem
sou zen
e tenho amor no coração.
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
Existe
A linha solta
que prende tua roupa
é obscura demais
e por isso meu entusiasmo
em cortar com tesoura afiada
a fenda nobre e singela
que envolve teu corpo.
Os olhos que me olham por trás
as costas nuas
protegidas por uma faceta
de cobertor
e nem faz frio
dentro deles encontro
o aroma sublime
de exaltação.
Remoendo de prazer
percebo inconscientemente
que a razão pura
o admiravelmente transcendente
existe.
A linha solta
que prende tua roupa
é obscura demais
e por isso meu entusiasmo
em cortar com tesoura afiada
a fenda nobre e singela
que envolve teu corpo.
Os olhos que me olham por trás
as costas nuas
protegidas por uma faceta
de cobertor
e nem faz frio
dentro deles encontro
o aroma sublime
de exaltação.
Remoendo de prazer
percebo inconscientemente
que a razão pura
o admiravelmente transcendente
existe.
quarta-feira, 26 de outubro de 2011
Prisioneiro
Procura no calendário uma data como se fosse um soldado tentando se comunicar, mas ninguém quer entender. Na guerra os prisioneiros são considerados estorvos. Melhor mesmo é acabar com eles. Um tiro no estômago, na nuca, na face? Na face não, porque vai estragar a cerimônia de adeus.
Uma data sem nome, sem pátria, sem traição, palavra maldita. O poder de fogo das tropas inimigas é muito maior do que se imagina. Tinha consciência disso, porque sempre foi um bom observador. Agora, só lhe resta o que ensinaram: é preciso morrer com dignidade. Apostar na própria sorte é um desafio, uma questão de sobrevivência. Tinha de escolher uma data, um mês, uma hora, um segundo qualquer. Um plano?
Desenha um mapa, aponta as localizações importantes, mesmo que não tenha a capacidade de conhecer a geografia local. Apenas informações não basta, é necessário algum tipo de condição, algo que possa ser checado posteriormente. E, por isso, o plano de sobrevida. Uma data, uma pequena data, não mais que isso.
Quando o comboio desceu a colina uma pequena sensação de alivio foi tomando conta de seu corpo.Sentia-se leve, como se flutuasse em nuvens brancas. De fato, ele flutuava em nuvens brancas. E queria permanecer ali, flutuando, inconscientemente flutuando, sem tempo, sem cicatrizes, sem calendários, como se fosse um prisioneiro da alegria.
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
Curvas
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
Voz
Forneci todos os meus dados, minha íntima vida privada. Tive confiança na pessoa, sei lá, simpatizei com sua voz, com sua maneira de se comunicar de dizer as coisas como elas realmente são. E por isso abri minha vida para ela. Desligamos as conexões, desplugamos os plugs da nossa ligeira união e passamos a viver a continuidade das nossas vidas, vidonas ou vidinhas. E passo pelas ruas a olhar os semblantes de quem passa. E passo a procurar enquanto passo. Sem sobressaltos, sem rancores ou cicatrizes vou escolhendo um a uma, uma a a uma, alguém que possa ter as feições daquela voz singela, autêntica ao ponto de me tocar tanto. E fui descobrir depois, porque depois a gente sempre descobre, que meus dados foram divulgados na listagem das grandes companhias que insistem em me chamar para vender planos, sonhos e créditos. E toda hora eles me ligam, no sábado, no domingo, a meia noite, de madrugada. Eles sabem meu nome completo, onde e como nasci, sabem os detalhes da minha ansiedade, as voltas da minha depressão, os traumas das minhas passagens. Troquei de número, mudei o aparelho e nada adiantou. As ligações continuaram e com muito maior intensidade.Um dia, farto de tudo, resolvi me desplugar do universo. Hoje não falo mais com ninguém. Dizem que surtei, que me isolei, que sou um outsider. Não sei o que sou. Só sei que ainda procuro, no meio da multidão, o dono ou a dona daquela voz singela que tocou meu coração.
domingo, 25 de setembro de 2011
Escorrendo
Nosso lema
nossa verdade
nosso hino absoluto
rotulado de idéias
e de senso comum
idealizamos nosso
próprio sucesso
e por isso detestamos
e quebramos a memória
de tudo que foi
muito lúcido
muito claro
e transcendente
preferimos enfrentar
mas não sabemos
os rumos da agonia
e por isso nos armamos
com as armas artezanais
do nosso
absoluto sorriso
ingênuo de lágrimas
de cor e de sonhos
queremos ser marginais
colocamos no nosso rosto
escorrido as marcas
amargas do nosso próprio
insucesso.
Equilíbrio
Tenho fome, mas não como. Não como porque não posso comer. Aliás, não devo comer, porque tenho de me controlar. E controlando a mim mesmo eu chego - ou devo chegar - ao meu ponto de equilíbrio. E é exatamente isso o que importa, saber alcançar o ponto de equilíbrio. Pensam que é fácil? Não é. É bem difícil - pois exige um monte de atitudes do tipo: determinação, saber se controlar, tentar ser menos ansioso, fazer o possível para evitar comer alguma coisa muito boa que está ali disponível, mas, infelizmente, não se pode retirar aquela guloseima, do tipo sorvete de morango ou abrir uma garrafa de sirah, porque se assim se fizer, estará rompendo com a promessa. E não se pode romper com a promessa, porque rompendo a promessa estará enganando a sí mesmo. E quem engana a sí mesmo é mais do que um bobalhão. É um tremendo imbecil. E não quero - sob hipótese alguma - ser taxado e rotulado por aí de tremendo imbecil. E por isso, pelo exposto e não exposto, eu sigo seguindo as regras, tentando controlar meu apetite, minha conduta, porque o equilíbrio é o que verdadeiramente importa.
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
Do Outro Lado da Rua
No subúrbio da noite, uma janela se fecha. As luzes que estavam bem brilhantes se apagaram. As regras existem e elas exigem o nosso obrigado silêncio. Temos de conviver e apelamos, então, para nossos deuses morais. Tentamos disfarçar nossa decepção, porque eles estão sempre contemporizando com os ditos inocentes. Benditos ou malditos, tanto faz. Nossa angustiante espera não vai além e nos atordoamos com o encanto e a magia desse grande circo. Ele nos causa emoção, medo e indignação. Não deixa de ser interessante -- e aí está o paradoxo -- que as soluções podem ser encontradas, porque os paradigmas existem. É só seguir os passos já alcançados, podemos copiar, colar, podemos fazer de tudo, mas onde está aquela vontade, aquela gana que aparece sempre na hora exata. Aparece? Por que a demora? Nessas horas vem a lembrança daquele tio que nos chamava a atenção acerca dos interesses que nos mantém amarrados. E no meio dessas algemas de detalhes apelamos para toda a sorte do mundo: magia, templos, arenas, rezas, livros mágicos, religiões esquecidas, ideologias baratas. E quando acordamos - porque sempre acordamos -- nos damos conta de que tudo isso é apenas a nossa vida e que nossa voz não está afinada o suficiente para que tenha condições de ser ouvida do outro lado da rua. Fechamos a porta, apagamos a luz, baixamos a janela, trancamos, enfim, nossas grades para que a noite seja segura - e confortável.
Barba no Rosto
Bah, cara
eu tenho barba no rosto
e não é de hoje
nem de ontem ou anteontem
já faz muito tempo
que eu tenho
barba no rosto
mas só hoje percebi
eu tenho barba no rosto.
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
Desenho
A mão firme, ainda um pouco dolorida, abraça o lápis e os traços são elaborados ou pintados. As cores geralmente são fortes -- vermelho de sangue coagulado, azul de céu de tempestade, cinza de nuvens carregadas -- e todas as mulheres, sim todas as mulheres, estão presas ou encobertas por formas geométricas ou raízes, como se vê de seu trabalho mais recente. Não se sabe, porque apenas se comentou sem maiores indagações, se elas procuram raios de liberdade ou se são prisioneiras de seu cotidiano ou destino. O curso do trabalho é mostrado on line e os conhecidos tecem seus comentários. Assim o processo é constituído, executado e finalizado. A autora dá um respiro mais fundo, expreme os olhos, como sempre faz ao observar, e toca graciosamente com a ponta dos dedos na obra finalizada. O desenho é, enfim, colocado numa pasta e guardado na gaveta da mesa do escritório.
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
Versões
O fato aconteceu num sábado a noite, talvez tenha sido a tardinha. Não se sabe ao certo, porque as nuvens da memória não se dissiparam da forma como se esperava. Tudo inicou com uma simulação, uma simulação de sono. Bateu a campainha na porta de baixo e ele estava assistindo televisão. Alguém tinha de descer para atender , mas um programa interessante estava passando, talvez um jogo de futebol, um filme de suspense: algo do tipo. Talvez -- e essa hipótese também foi ventilada -- ele estivesse cansado e aproveitou a situação para tirar um cochilo. Talvez, sempre talvez. Ela que estava no andar debaixo subiu a escada e foi nesse momento que a campainha tocou e ele começou a simular o cochilo.
Ele fechou bem os olhos e se embalou suspendendo suas funções corporais, ficou inativo. Repentinamente ele sentiu em sua barriga (um pouco demais inflada) uma mão que lhe tocou exatamente a região do umbigo. Um necessário parênteses: quando ele tinha um ano ou dois ou talvez três ou quatro, uma babá foi contratada para cuidar dele. Não era uma babá boazinha, porque sempre na hora de trocar as fraldas ou suas roupas ela fazia cócegas. E não era uma simples "cósquinha". Era algo meio que -- digamos assim -- torturante. E a pobre criança ficava a rir e chorar numa situação de total angústia.Isso gerou um trauma.
O fato é que no momento em que ela acariciou a barriga dele -- exatamente naquela região do umbigo -- ele fez um gesto brusco de proteção, de puro reflexo, como se fosse um goleiro defendendo uma bola a "queima roupa". E nesse movimento ele acertou ou o braço ou a mão dela. E a lesão não foi pequena, foi bem maior do que se imaginava. Ela ficou magoada com ele. Ele ficou chateado com o acontecido. Amanhã ou depois quando ela ficar boa -- porque sim ela vai ficar boa -- eles poderão até rir do que ocorreu. Mas, por enquanto, ela ainda tem de tomar os medicamentos contra a dor, suspender as sessões de pintura e literatura e aplicar no local uma bolsa de gelo que queima. Uma grande chateação.
Ele assiste a tudo isso sentindo as dores dela. Ela talvez não acredite nessa versão, mas ele já disse mil vezes que está muito sentido. Falou até mesmo (vejam só) que poderia ceder suas mãos para ela, se por acaso, ela quisesse.
domingo, 28 de agosto de 2011
16
Coringa, coringa, minha insistência
16 cm, ops no dezesseis.
Sim no 16
Ali está a roda da fortuna
o nosso êxito
o nosso grande êxito.
sábado, 27 de agosto de 2011
Transcendência
Passo a medir um a um
os passos percorridos
como se estivesse na praia
e fico a olhar
cabisbaixo
a minha própria
finitude.
Isso não poderia ser assim
de lado colado
na ponta do pé
como se fosse algo
ou ninguém
um tanto enigmático
um tanto perdoado
como se tivesse a capacidade
de conjugar os verbos
Vejo distante e aprecio
a plataforma iluminada
cheia de...
não sei exatamente o quê
e isso incomoda
me incomoda
porque quero adquirir
as luzes
da transcendência
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