Buscando não se sabe bem o quê.
segunda-feira, 7 de maio de 2012
Lego das Palavras
Fiz isso algumas vezes, o subversivo num espaço concreto. Eu tenho medo do quê? Procuro lucidez e espanto. Posso ser poético, buscar um soluço de amor, uma alma fácil de achar. Posso até mesmo, por que não? me transformar numa espécie de predador que tenta corrigir os verbos, os substantivos delicados, os adverbos e seus significados. Rejeito bulas e manuais, porque minha incorrigível ansiedade coloca imediatamente em prática as engrenagens que desempacoto. As caixas são grandes e pesadas. A vida é dura e cheia de objetivos. Monto antes de analisar, termino antes de concluir. Os detalhes podem ser sinceros. E eu adoro a sinceridade, mas dessa vez eu passo. Porque no fundo, no fundo, tudo é jogo de palavras ou de linguagem.
O homem sempre procura um berço, um projeto de abrigo, um ninho onde o olhar cego não possa penetrar para colher ali o fruto da informação. Melhor mesmo é seguir oculto, mas sempre presente, como se fosse um velho cabide que abriga roupas jogadas.
quinta-feira, 12 de abril de 2012
Viagem
Fui derrubado por uma onda. Respiro. E nasceu dentro de mim um vampiro, um lobisomen ou um saci pererê. Sei lá. Minha reserva foi para o espaço e resolvi pegar o primeiro bonde, ou o primeiro dodge. Vou para Cuba descobrir as lições de Fidel.
Não quero viajar sozinho, sinto falta de alguém para comentar as paisagens, suspirar e dizer, veja só que bonito ou isso é tão maravilhoso ou até mesmo um fiquei decepcionado da vida.
Deu tudo certo, apesar de todos os debates e discussões. O passeio foi bonito, percorremos a cidade, respiramos os ares do melhor parque do mundo, os teatros, as compras e encontramos, nos labirintos das ruas numeradas, os restaurantes. Tudo isso, apesar dos percalços.
Eles existem e devem existir. Pior seria se tudo fosse sempre dentro dos conformes, se a hipocrisia ingressasse de vez na nossa vida e ditasse as regras e maneiras. Sim, discutimos, brigamos, tentamos impôr nossas idéias, mas com o necessário e devido respeito- ma non troppo. Mesmo para embalar uma fatia de pizza num restaurante portoriquenho depois de uma peça de teatro.
sexta-feira, 16 de março de 2012
Êxtase Absoluto
Acorda, acorda e escuta, amor, o acorde que toca lá fora, ele reveste o verso, tem brilho, tem harmonia.
A formatação é sincera, sob forma rítmica, um pouco acelerada, eu sei, mas nem tanto, nem tanto.
Parece incorporar a forma, as raízes, teus olhos escuros, quase obscuros, capazes de me cegar.
A memória que falha, a menina que canta, o vestido que encanta, reveste a parede de cor tão formosa.
Mergulha, mergulha, meu bem, no clímax sincero, ri um pouco, como forma partida de dor mal dormida.
É hora de enfrentar o presente, o norte, o desgaste, o rumo forte de passos quase descalços.
Levanta, levanta, marcha marcada, de olho no nada, são poucas as boas, movidas em fé.
Pobre engenheira que mede as maneiras, os cantos do nada, as casas quebradas, as louças vazias.
Não boceje nem nada, querida, lave e leve o lenço úmido para o silêncio do dia, faça a gloriosa trajetória.
Eu te empurro, como sempre faço, te forço, te sufoco, te obrigo a sentir o êxtase.
E depois, quando tudo chega ao seu final, eu peço desculpas, muitas desculpas por te manter acordada.
quinta-feira, 15 de março de 2012
Fucking Angry
Não se pode -- jamais, nunca, never -- perder a dignidade. Isso é o que a vida nos impõe.Temos de ser dignos, ponto final. Não podemos, sob hipótese alguma, fugir desse norte. É assim que deve ser, está estabelecido, está escrito nas escrituras.
Não podemos ser profanos, não podemos criticar o que não pode ser criticado, temos de nos comportar, nosso dever é sempre manter a linha, não deixar ela ficar torta, porque é essa a estética da vida.
O belo é belo e não se discute. Exite o belo, assim como existe o feio. O belo deve ser admirado, o feio foi feito para ser criticado. A arte bela deve ser exposta, o que é horroroso deve permanecer na escuridão do vazio.
Estou dizendo essas coisas apenas por dizer. Quem se interessar que leia; quem não se interessar que dê um clique e vá embora.
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
Umbigos
Sábado de noite, do alto do andar de cima ela ouvia a conversa dos meninos na sacada, na verdade, eles são homens de 30 anos. Ela, com seus 40, nunca tinha presenciado uma conversa masculina explícita do tipo fulano é o tal porque comeu a gostosa e tesuda da beltrana; as mulheres são chatas porque não têm senso de humor e coisa e tal.
No dia seguinte, impressionada, ela me comunicou que estava tomando uma decisão importante, não confiava mais nos homens. Por quê, perguntei, ora, ela me respondeu, porque eles são interesseiros, insensíveis e só pensam no seus próprios umbigos. Eu disse, nem todo o homem é assim, como tudo na vida existem as exceções. Ela me interrompeu, tu também és assim. Tu és como eles.
Fiquei a pensar sobre esse veredito. Será que sou assim? que todo homem é assim? será mesmo que a nossa genética, nosso metabolismo, nossa cultura têm essa capacidade impressionante de nos moldar de acordo com uma forma, sobre a qual estamos irremediavelmente presos?
Consultei os astros, fiz oferendas, ingressei no curso intensivo de sensibilidade e estou a aguardar alguma resposta, algum resultado. Por enquanto meu coração está cheio de dúvidas.
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
Cronologia
De repente encontro um nome, vejo a face marcada com rugas em volta dos olhos, as mãos entrelaçadas e envelhecidas, minha curiosidade atiçada, pois tento olhar melhor, aceito a ajuda de uma lupa, fixo os olhos cansados para encontrar algum detalhe que possa ser um pouco mais significativo, mas a imagem um tanto discreta não é de boa qualidade, talvez tenha sido atingida pelo mofo das horas.
Além do Ordinário
Pobre de mim, diz o outro. Pobre de ti, digo eu. E deus fez o silêncio da reflexão. E ele também criou a voz, o espanto e a sensibilidade. Os insensíveis devem fazer um curso, porque na vida é necessário transcender. Ontem no jantar me avisaram que só poderemos julgar os outros se usarmos por alguns dias a suas sandálias. Eu não gosto de usar sapatos alheios e também não tenho muita vontade de fazer cursos de sensibilidade. Dizem que sou burro, porque critico os ditos progressistas, mas me considero liberal, até um pouco liberal demais. Verdade seja dita, é muito complicado chegarmos a uma solução mágica, porque as peças simplesmente não se encaixam. E não adianta contratar os escultores ou os alquimistas, elas não foram feitas para serem encaixadas. Nos afogamos nessa desordem capenga, administrando as crises da consciência e tentando sempre achar a senha da contemporização. Nunca resolvemos a fundo, porque o fundo é muito mais profundo do que se imagina.
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
Sonhos Auspiciosos
Sugo os detalhes, apaixonados detalhes, da mão macia sobre o terno cinza enquanto dirijo em direção ao esquecimento. Sopro o vento que bate de frente enquanto durmo na imensidão do leito que escolhi para um pouso repentino. Leio as escrituras, sagradas leituras de um livro quase bíblico numa tarde quente, quase ensolarada, onde percebo que tudo o que me foi dito nada mais significa. Não choro, nem desanimo apenas percebo, porque na minha intimidade consigo, apesar de tudo, dar um trato na minha desordem. As prateleiras estão cheias, os labirintos não chegam mais até lá, e por isso me perco enquanto me balanço num sono vazio, quase alucinante, navegando em metáforas.
Erotizando Um Laço Vermelho
disca o nome pela tua vez
nem sempre na ordem
dessa desordem
cai o pano
em torno do pescoço
arroxando
marcando profundo
o que já está
extremamente fundo
no alto do espelho
reflete a face
tímida proclamando
esperança.
sábado, 28 de janeiro de 2012
Cactos
No quarto escuro da minha cegueira rememoro. O detalhe da doce e inocente mão que limpa o líquido branco derramado sobre o estofado. Somos feitos de esquecimentos, simplesmente esquecemos, isso faz parte da nossa engrenagem, porque somos chamados a resolver outros assuntos pendentes e quando tempo passa, quando o relógio marca meio dia corremos para o banheiro colocar as lentes da nossa visão. E a ardência é imediata, o colega de escritório alertou, mas irresponsavelmente tomo a estrada e no meio dela paro, na praça de pedágio, aguardo socorro, meus olhos incendeiam enquanto tomo, vejam só, milkshake de ovomaltine.
Um cactos, daqueles que aparecem nos filmes do Leone, um simples cactos sem espinhos, mas com sangue branco que mancha o estofado do carro. Daqui da sala da escura da minha cegueira contemplo ele lá fora, na sacada, olhando para mim, como se fosse um alien, esperando a hora certa de dar o bote. Não tenho jeito e nem aparência física de Sigourney Weaver, nem suas ferramentas para combater alienígenas, mas aqui, com minhas pomadas e colírios alucinógenos estou alerta, sempre atento.
O louco de Ray-Bann que circula pelos banheiros lavando o rosto e que nunca fica quieto porque se desloca de lá para cá, a dor é tanta que ele não sabe o que faz, mas senta solitário na sombra de uma árvore caduca enquanto bebe o milkshake gelado. Espera, aguarda, espera o socorro que tarda a vir e que, depois de horas, chega e gira a ignição do carro que parte em direção ao litoral.
Dos colírios da minha cegueira percebo os erros que contaminaram meu dia, foi apenas um dia, simplório dia, que ficará guardado nas prateleiras da minha memória. Escrevo isso enquanto estou sozinho, porque meu pessoal foi para a praia, mas ouço ruídos na sacada.
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
Relativo
Quando ventila
e faz o mote
que dá azo
ao que tudo parece
mas intriga
e por isso
o velho jogo de palavras
nada significa
porque o significado
não tem significância
depois desse chavão
paramos todos na inércia
de que tudo pode acontecer
até o choque da melancolia
o riso gostoso da puberdade
a velocidade espantosa do tempo
que passa e já aconteceu
e nos deixou
ficando para trás
como sempre foi
e como sempre será.
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
23 de Dezembro
Um dia eu mudo e passo a fazer tudo de acordo com os conformes. Essa foi a sensação que me ocorreu quando aconteceu o inesperado. Não sei porque motivos exatamente ela saiu da sala; porque ficou sentida, porque estava tonta pela discussão, não sei ou não me lembro bem o que efetivamente aconteceu, ate mesmo porque estou com a cabeça nas nuvens; tudo por conta desses dias mormacentos de fim de ano que tem, de um lado, a alegria das festas, mas também tem, de outro, a cobrança e a pressão.
O certo é que ela se retirou, desceu a escada e foi lá para baixo, mexer com a vida, fazer seus negócios, arrumar as gavetas, os discos e livros. E eu aqui em cima olhando para uma TV que diz ops, não foi possível iniciar o conteüdo. Bem me lembro agora, porque me deu uma espécie de insight, que foi exatamente isso, uma máquina da última geraçao da tecnologia falhou e ninguém foi capaz, nem mesmo o homem da casa, de arrumar o defeito.
Poderia ter ligado, claro que sim, para o pessoal da tv a cabo, mas não tenho tempo e nem saco para isso. Daí o impasse e o mal estar que a obrigou - se é que posso dizer assim -- a descer as escadas um tanto indignada. Olho para o relógio agora e vejo que o tempo passou, faltam alguns poucos minutos para as 23 horas e amanhã é 23 de dezembro. A novela terminou e tudo está silencioso.
Nessas horas fico um pouco retraído, estou aberto sim a uma discussão sincera, muito embora eu já esteja cansado, Quero ir dormir, porque amanhã o dia vai ser longo, tenho de cumprir as metas e os objetivos, depois de tudo feito, anuncio o meu retorno, mas corro o risco de ouvir apenas o barulho inconsolável do silêncio.
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
Luta de Classes
Têm dias que acordo poeta
outros dias não
hoje resolvi participar
da minha própria
luta de classes
Ainda não sei qual camisa vestir
se a azul ou a vermelha
tudo o que não quero
é morrer
e por isso insisto
na cautela
Sou um revolucionário conservador
ou um conservador revolucionário
não sei qual a ordem
e os fatores
e nem quero saber
Dizem que esse dia virá
e quando ele chegar
vou ser forçado
pelas circunstâncias
a escolher o meu canto
Não quero morrer no mato
nem esfaqueado
com um tiro nas costas
quero sobreviver aos tormentos
quero ultrapassar os limites
inclusive os mais nefastos
e viver verei
A luta pela sobrevivência
é digna dos dois lados
existem os heróis furiosos
os covardes autênticos
os rebeldes intransigentes
e os fracos
e eu nem sei
o tamanho do meu destino.
Meu tormento não tem fim
e nunca terá
dizem as línguas
se esse dia chegar
e espero que não chegue
eu vou ter de
mudar.
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
Feixo
Quem quiser falar com deus que segure esta ponta. Tamanha insolência é a resposta para o simples silêncio. Faz força, faz! Muito peso, mormaço, o suor das almas imaturas. O cheiro azedo das necessidades, os rancores precoces, as verdadeiras vontades, a camisa manchada de sêmen, a iludida personalidade.
Desliga o ar, abaixa o volume da caixa, a chave perdida, a senha esquecida. Pensa algo rapidamente pensa, o que jamais se pensou, o que nunca se admitiu. A coragem repentina que aparece, mas vai embora. Pensa logo, pensa. Onde nunca pisou. Onde nunca existiu. Onde não se esteve.
Um lugar do mundo, no canto de algum morro, onde poucos passam, a pele fria de um eremita, soldado isolado, com seu chapelão. O ermitão e seu imenso bacamarte que vai apontado para a cara do desprezo. Esquecido, silenciosamente esquecido.Cuidado, muito cuidado.
Os holofotes não brilham mais, porque ninguém mais quer receber o foco ameaçador de um insignificante feixo de luz. Modesto, simples, mas nunca simplório. Faça-se a luz para investigar, colocar na cara do paciente a verdadeira verdade.Ameaçadora verdade. A desprezada verdade.
Porque ninguém quer saber.
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