Buscando não se sabe bem o quê.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Pá Virada




Isso aqui não é enciclopédia, nem wikipédia. Portanto, cuidado com o que aqui se lê. Não me interessa o tamanho da fonte, se ela é confiável ou não. Isso aqui é apenas um registro e nada mais do que um registro. Um mero livro de notas. Quem estiver satisfeito que permaneça no seu lugar, que fique como está. Quem não estiver satisfeito que aperte a tecla del.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Mulheres divinas




Uma poetisa de muito tempo disse que as mulheres devem ser inventadas. Gostaria de ter esse brinquedinho. Quem sabe um controle remoto que tivesse a tecla de pause e stand by? Seria sucesso de venda. Se eu tivesse de escolher algum deus grego para minha catequese eu escolheria Afrodite ou Eros. E inventaria a mulher exatamente de acordo com o dom divino da sensualidade. Quando era pequeno e chegava dezembro, eu ficava olhando a televisão bicolor que mostrava propagandas de mulheres de saia. Elas corriam pelos campos em busca do chocolate perdido. O professor me disse que as mulheres de antigamente eram as verdadeiras donas do lar. Elas colhiam os frutos da terra que eram aquecidos nas caçarolas para alimentar as famílias das cidades antigas. Por acaso a vida hoje é diferente? A mulher não foi inventada e nem reinventada. Ela está onde sempre esteve. No pedestal do lar.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Receita


Subway dreams - Daniel Park


Meu mundo fascinante não merece relevo. Apenas sigo os passos da minha formação. Aqui vivi e aqui estou. E, portanto, não estou preocupado com os comentários que se faz no corredor e nas salas ao lado. Com passos largos e ritmo acelerado percorro o longo trecho até a porta do elevador. Fico cabisbaixo olhando fixo para o chão e ensurdeço. Se alguém me vê eu não olho; se alguém me chama eu fico surdo. A meta é chegar na porta de saída. É por isso que vivo. Tomo o elevador e desço rápido. Passo pela portaria contando os ladrilhos encardidos do velho prédio de escritórios. Minha incorporação sou eu. Ninguém manda em ninguém. Eu mando em mim. Não mando nos outros que fofocam a meu respeito. Eles me chamam disso e daquilo. Eu sei que sou esquisito. No final do mês pago a remuneração com o dinheiro que resta e ponto final. Sou homem de poucas palavras, não faço comentários, apenas determino que cada um siga sua função. E nesse processo eu vivo e colho os frutos para meu franciscano sustento. Chego em casa já cansado do barulho do nada e me debruço na janela que se posiciona para a grande avenida. Sigo os carros com olhar atento e me hipnotizo. Finalmente estou só, como sempre. E adormeço no mesmo sofá que encanta a mesma sala onde meus pais viveram e faleceram. Sigo exatamente as receitas que eles me ensinaram. É necessário ter cuidado com a vida.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

A Fulana




Os colegas de trabalho me pediram. Não havia como trabalhar com ela. Criava cizânia, vivia reclamando, organizava intrigas. Mas ela era uma boa profissional. Os colegas me deram um ultimato: era ela ou eles. Resolvi chamá-la na minha sala e iniciei a conversa: fulana, você é nova, você está estagiando, tem todo um futuro pela frente, mas está havendo problemas por aqui e você sabe disso. E fica complicado para mim trabalhar com um grupo desunido. Eu preciso de convergência. Infelizmente, fulana, não vai dar mais para a gente trabalhar junto.

Ela me olhou com os olhos bem arregalados e as lágrimas começaram a cair e se descambou a chorar. E chorava e chorava. Eu, desajeitado para esse tipo de incidente, não sabia o que fazer e o que dizer. E a fulana chorava: dizia, como vocês podem fazer isso comigo? Depois de uma pausa falei: fulana, assimila. Vou te dar mais uma semana aqui, mas assimila.

O tempo passou, a vida continuou. Semana passada encontrei a fulana. Ela disse que estava ótima, que estava trabalhando, que queria fazer concurso, que estava para casar com um Juiz, etc. Eu fiquei apenas ouvindo, escutando o que ela dizia com certa ansiedade. Nos despedimos e cheguei a boa conclusão de que ela assimilou.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Focos Obscuros de Uma Certa Memória




Descobri que existe noite. Que é possível dormir até mais tarde. O gosto do vício que também alucina. A comida que faz engordar. O líquido responsável pela embriaguez. O sabor do fumo que intoxica. A música que leva viajar.Descobri o lado do fascínio. Minha visão e sensibilidade, enfim, atingiram um outro ângulo. Não estava preocupado com o sentido da vida ou com a finitude de tudo, pois era muito jovem. As mulheres e suas saias me interessavam e passava a procurar seios na televisão bicolor tarde da noite, quando todos dormiam. E ficava horas esperando que aquilo acontecesse. E muitas vezes não acontecia. Frustrado, morrendo de sono, dormia. Sonhava como sendo o chefe glamoroso de uma família linda, de médicos ricos, donos de um grande hospital. Imaginava ela maravilhosa, linda, magra e inteligente, tinha até nome. Geramos filhos esbeltos e saudáveis. Todos formidáveis. Mas foi por pouco tempo, porque me desinteressei. Virei rebelde. Passei a contestar. Gostava de discutir. O cabelo cresceu, os tênis sujaram, as roupas ficaram estranhas. Andava de ônibus com a multidão de trabalhadores proletários, o que alimentou radicalmente o meu rol das pequenas descobertas. Comecei a ler entusiasmado os escritores malditos, aqueles que minha turma nunca lia. Anotava as palavras mais radicais. E vibrava com tudo aquilo. Usava nas conversas, debates e discussões. Virei um chato. Percorria as ruas populares e escuras no mais sagrado anonimato. Ninguém sabia, porque ninguém me via e eu não contava. Ninguém reconhecia, porque eu estava disfarçado. Era sempre tarde da noite.Depois dormia e sonhava. Não sei quanto tempo isso durou, porque não lembro mais de nada. Apenas pequenos fragmentos que eu ainda descubro em alguma prateleira que deixei aberta.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O Mundo Sobre Mim




Fui um menino que tinha vergonha de pedir licença para ir ao banheiro. E me borrava nas calças e o cheiro invadia a sala de aula. Todos se olhavam e a peça acusatória corria contra mim. Ficava vermelho de pura vergonha e saia torto em direção a porta enquanto o pessoal ria. E a diretora chamava mamãe que estacionava seu volks na porta da escola e vinha com uniforme novo para eu vestir. Voltava para a sala acabrunhado, fechado em mim mesmo, contando as horas para o tempo passar e voltar para casa, para o coração do meu quarto, onde eu podia dominar o mundo.

O mundo era eu. Eu pensava que o mundo funcionava apenas ao meu redor. Todos faziam parte de uma grande encenação, onde eu era a figura principal. A realidade só existia na minha presença. Eram todos coadjuvantes da minha vida. Existiam os bons atores principais, aqueles que faziam parte da minha família. Existiam os coadjuvantes que eventualmente participavam da minha vida. Sempre quis encontrar os bastidores dessa grande encenação. Procurava nos cantos, nas portas, nas esquinas uma brecha, onde eu poderia descobrir essa falsa realidade. Queria passar para o outro lado, mas nunca conseguia.

Um dia me dei conta que a vida é muito mais complexa do que eu imaginava. Cada pessoa tinha sua própria vida e o mundo não mais me pertencia. Não havia teatro ao redor da minha pessoa, não haviam atores principais e nem mesmo coadjuvantes. Todos eram atores principais de suas próprias vidas. Juro que não fiquei decepcionado, mas aliviado. Os holofotes não estavam acesos apenas por minha causa. Eu poderia circular pelo escuro, sem que ninguém me visse. Eu tinha condições de ter alguma autonomia, sem que ninguém ficasse sabendo. Descobri, então, o lado escuro da vida.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Conselhos do Conselheiro




O Conselheiro Sentimental da Revista Caras continua no comando.

Margarida está deprimida e pergunta, o que posso fazer para sair da depressão? Respondo> Querida Margarida, procure levantar cedo e cheirar profundamente o calor da manhã. Busque nas cores das estações o ângulo mais certo. Seja gentil e amável com as pessoas ao teu redor mesmo que elas sejam cavalos ou trogloditas. Sorria porque é bom sorrir. Enfim, busque a felicidade a qualquer preço, mesmo que ele seja extorsivo.

Rapunzel Magoada brigou com seu príncipe, ele disse que encheu o saco, ela precisa de ajuda.
Respondo> Querida Rapunzel, seja como você sempre foi. Fique calma. Repire fundo. Pense antes de falar. Dê tempo ao tempo. Não faça besteira. Não ligue para o seu príncipe. Deixe ele sentir saudades. Não faça nada precipitado. Quem sabe um dia ele volta.

Louca entristecida perdeu a paciência com o marido. Ele não satisfaz suas vontades carnais, ela é fogosa e precisa de conselhos.
Respondo> Dear Louca, se a situação está complicada faça a suprema tentativa: compre uma lingerie vermelha e se debruce sobre ele. Veja o que ele faz. Se ele não der sinal de vida. Desista. Arranje outro.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Onde Está o Super Homem Que Existe Dentro de Nós?





Um bom administrador de vidas, e deus cego é exatamente isso, deve saber aceitar a vida como ela é. Isso pode ser muito fácil, pode ser muito simples, mas não é. Não é mole, é muito duro conseguir aceitar a vida como ela é. Muita gente não consegue fazer isso. E tem gente que acha que sabe fazer isso, mas não sabe. Não estou (please) a defender aqui uma certa índole conservadora. Não confunda aceitar a vida como ela é como as coisas são assim porque Deus quis ou o mundo é injusto, o que fazer? Não estou a defender, com essa minha tese piegas, a manutenção do status quo. Muito pelo contrário, aceitar a vida como ela é significa aceitar a própria existência, inclusive respeitar o ponto de vista das pessoas que estão ao nosso lado. E o ato de aceitar é o início, é o ponta pé inicial para qualquer tipo de mudança. Quem não aceita a vida como ela é está em permanente conflito consigo mesmo. Fica doente dos nervos por qualquer coisinha, respira estresse, colhe brigas e ressentimentos. O vivente que aceita a vida como ela é tem mais condições de mudar para melhor, porque uma forma de organizar melhor o pensamento ( e pensar bem faz bem) é saber aceitar a vida como ela é. Conheço alguns caras que estão chegando na meia idade, onde o sentimento de finitude começa a tomar conta da nossa existência, que simplesmente não aceitam a vida como ela é. E tentam ser o que não são. Formam personagens anacrônicos e imaturos e fazem de sua vida uma grande e irresponsável bagunça. E o momento certo ( ou limite) de aceitar a vida como ela é (sorry por repetir tanto essa frase) é exatamente esse, na meia idade. Administrar bem a vida, reconhecer nossos fracassos e virtudes, procurar corrigir a partir da nossa própria aceitação é a fórmula mágica e secreta de se obter sucesso, emocional, profissional, pessoal. Pronto, posso ser conselheiro sentimental da Revista Caras.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Sobre o Cheiro da Comida do Restaurante do Chinês do Lado.


Aspiro fundo a procura de um cheiro. No meu bloco de notas os compromissos agendados. Coloco os óculos para enchergar de perto. Anoto o que efetivamente é preciso. Estou em fase de economizar movimentos. E o cheiro, finalmente, aparece. Cheiro de fritura. Imagino uma grande panela com óleo até quase em cima e dentro dele nacos de carne sendo espalhados por toda a superfície. Ou pequenos camarões mergulhando na frigideira corroida pela banha saltitante.


De manhã cedo quando chego ao trabalho avisto o senhor chinês voltando da feira. Ele anda encurvado e carrega sacos de carnes, verduras e hortaliças. Seu andar é apressadinho. Os óculos grandes, velhos, pretos e redondos tomam conta de sua face. Ele nunca me cumprimenta. Eu nunca cumprimento ele. A gente simplesmente se conhece.


Um dia, em janeiro, fui ao restaurante do chinês ao lado. Estava com fome e comi pratos e pratos de camarão frito e a noite -- ao me recostar -- fiquei esperando o ronco dolorido do estômago. Nada disso aconteceu, os camarões estavam bons. Nunca mais voltei ao restaurante do chinês do lado.


Talvez no próximo janeiro, quando os deuses da vida estiverem descansando na praia, eu retorne. Por enquanto, aspiro -- meio enojado -- o aroma rançoso da carne ou dos camarões fritando na velha panela recheada de óleo. Penso no verão mormacento da cidade grande. Por enquanto me encolho e procuro alguma leitura um pouco mais agradável. Melhor mesmo é fechar a janela e ligar o ar.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Sobre Minha Vã Filosofia


Nasci poeta porque gosto de escrever. Escrevo bobagens e petições. Aprendi a escrever com os dedos. E o mais interessante, aprendi a pensar com os dedos. Eu não vivo sem os meus dedos. Eles são minha cabeça pensante. Eles são muito mais rápidos do que meu cérebro. E tem horas -- juro por deus - que o meu cérebro quer que eu faça uma coisa e meus dedos fazem outra. E eu me atrapalho.

Sobre Um Certo (E Descartável) Celular Perdido e Encontrado




Perdi, meses atrás, meu celular. Tinha um monte de música que captei na páscoa em Buenos Aires. Tangos eletrônicos do tipo dub mix lounge ma non troppo. Procurei o diabo do celular em tudo que é lugar e coloquei a culpa no guardador de carros de uma churrascaria na Protásio Alves que levou meu carro para a garagem do estabelecimento. Mas não fiz nada, porque era apenas um celular, um aparelho que a gente troca como se fosse...... Bem, hoje é tudo descartável, até as relações humanas são assim.

E ontem no calor da madrugada, já cansado dos compromissos do plantão da porta de cadeia, dos hábeas para soltar menores bêbados, esses pequenos delinquentes que assustam as pessoas de bem nas calçadas da cidade, estressado diante dos problemas da vida me postei diante da santa cama e visualizei o maldido do celular perdido. Perguntei para minha deusa sonolenta: amada, que celular é aquele? É o teu que estava perdido nas entranhas do sofá, vai deitar que está tarde. E lá me fui me aconchegar feliz da vida, porque, enfim, não perdi os tangos dub mix lounge ma non troppo da minha coleção.

Sobre o óbvio


Quando deus fica famoso todo mundo reza por ele. Quando deus prega maldição mais fieis ele cativa. Quando deus posa de ar esnobe e autoritário mais cordeirinhos assinam a carteirinha de adesão. Os seres humanos definitivamente não sabem viver.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Sobre o Amor de Maria Por José


Ela se chama Maria. Maria das Quintas ou Maria dos Carmos. Talvez, Maria de Fátima ou Maria do Rosário. Ou apenas Maria. Sim, apenas Maria. Maria é típica. É pequeninha, cabelos bem negros, olhar salteado e bunda grande. Maria de personalidade. Maria de ferro. Maria furiosa. Maria doente dos nervos. Quase ou semi apaixonada por José de Oliveira, assim ele se apresentava. Gajo que ela encontrou nos bares da freguesia. Com ele as coisas corriam diferente. Pelo menos, ele não queria apenas levá-la para a cama. Ela gostava, porque ele a convidava para dar umas voltas, mas não as mesmas voltas, outras voltas do tipo, olhar os prédios da redondeza e falar sobre a vida inesquecível de seus avós e suas aventuras de infância no Minho. Maria não estava apaixonada, porque nunca esteve, mas gostava, porque gostava, de ser levada e protegida pelo guarda-chuva de um homem bom com voz simples e mão molhada.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

living la vida loca




Quando entra no quarto um pequeno arremedo de luz, acordo. Gosto de fumo seco. Olhar largo da minha fabulosa expressão. O silêncio da cidade do outro continente. Ilustre herança dos nobres sentidos. Pergunto, porque gosto de perguntar. Ouço respostas e anoto todas no diário caduco da minha cabeça. O que posso fazer se me esqueço?

Eu vi


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