Buscando não se sabe bem o quê.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Era Uma Vez Uma Panela Para Toda a Vida



Era uma panela, de grife famosa,  para toda a vida, até que um dia restos de  arroz grudaram no fundo dela e o ferro fundido começou a lascar. E depois da primeira lasca outras vieram. E a panela que era para toda a vida teve seu prazo reduzido. Entrei em contato com eles, expliquei o meu drama, eles foram atenciosos, mas já me alertaram: não trocamos sua panela, ela é importada e a troca só se realiza quando ela vem com defeito. Eles pediram meu número do telefone, eu passei.Talvez eles me liguem durante o fim de semana. Gostaria de ter uma nova panela para toda a vida, mas não pretendo fazer esse investimento (ou esse prejuízo). Dizem que panela velha faz comida boa, minha panela nova para toda a vida envelheceu. Talvez, agora, lascada e envelhecida faça comida boa.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Nomes em Vão



Porque dizes meu nome, nem soletra, apenas dizes, e complementas a dizer meu nome. O nome que não lembro, que ninguém lembra, apenas um nome em vão, o meu nome em vão. Não é sagrado, nem atormenta, engulo seco meu sobrenome de fortaleza  que cede os passos da primeira gloriosa crise.

Sei porque dizes meu nome  que  flutua no coração da  língua. A mesma língua que fala, lambe e come que resvala  entre os dentes, os meus, os teus, os nossos  e acaba penetrando, como membro forte, nos ouvidos externos.

Porque sei que dizes meu nome, em vão dizes meu nome, palavras que dizem nomes, palavras que saem das bocas, das bocas que dizem palavras ditas e não ditas, palavras inventadas e omitidas, bocas que brincam de sinceridade.

Escuto o nome, sussurras o nome, o nome emboscado, o nome do coração da inteligência, meu nome santo,  nome de santo sagrado, nome de todos os santos da nossa igreja.



segunda-feira, 28 de maio de 2012

Autarquias



Os ventos invadem  territórios descobertos. Os tempos de fraudes magníficas. São diversas as versões. Falam. Falam tanto. Falam demais, até do cu da formiga falam. Falam os poetas. Os vivos, os fracos, os existentes. Falam dos que se acabaram, dos que se foram e não mais voltaram. Outros se tornaram inesquecíveis, por seu modo de dizer, os efeitos, porque tratam de assuntos sublimes do tipo  hipocrisias da vida familiar. No contexto  das contradições e seus paradoxos,  o último  filme da Bruna Lombardi e suas coxas grossas. A amiga de Quintana,  a língua afiada.

Mudando de assunto -- e de filme -- a ousadia divina dos imortais,  os deuses que morrem, os que já morreram, os titans guardados no box, as bocas presas ao  ferro, eles  exprimem sua própria revolta.  Prometeram o inesquecível e falam de tudo e não falam de nada, porque se ouve e crê. E qual é, porra,   a diferença entre "period" e "dot"?

 A linha que liga dois pontos distantes. Um em Manaus e outro na terra da alegria. O vento que bate na cauda e que torna o voo mais rápido, em direção ao sudeste, onde vivem as cidades, o avião aterrisa uniformemente, a menina  reencontra o pai perdido no aeroporto. Ele pede asilo e abrigo. A família embarca na van, no rumo do hotel. Estão todos tristes e despedaçados. Tristes e despedaçados, porque não conseguiram o carimbo da autarquia. E o pior ainda está por vir, eles  não acreditam  mais nos semáforos.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Lego das Palavras





Fiz isso algumas vezes,  o subversivo num espaço concreto. Eu tenho medo do quê?  Procuro lucidez e espanto. Posso ser poético, buscar  um soluço de amor, uma alma fácil de achar. Posso até mesmo, por que não? me transformar numa  espécie de predador que tenta corrigir os verbos, os substantivos delicados, os adverbos e seus significados. Rejeito bulas e manuais, porque minha incorrigível  ansiedade coloca  imediatamente em prática as engrenagens que desempacoto. As caixas são grandes e pesadas. A vida é dura e cheia de objetivos. Monto antes de analisar,  termino antes de  concluir. Os detalhes podem ser sinceros. E eu adoro a sinceridade, mas dessa vez eu passo. Porque no fundo, no fundo, tudo é jogo de palavras ou de linguagem.
O homem sempre procura um berço, um projeto de abrigo, um ninho onde o olhar cego não possa penetrar para colher ali o fruto da informação. Melhor mesmo é seguir oculto, mas sempre presente, como se fosse um velho cabide que abriga roupas jogadas.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Viagem



Fui derrubado por uma onda. Respiro. E nasceu dentro de mim um vampiro, um lobisomen ou um saci pererê. Sei lá. Minha reserva  foi para o espaço e resolvi pegar  o primeiro bonde, ou o primeiro dodge.   Vou para Cuba descobrir as lições de Fidel.

Não quero viajar sozinho, sinto falta de alguém para comentar as paisagens, suspirar e dizer, veja só que bonito ou isso é tão maravilhoso ou até mesmo um fiquei decepcionado da vida.

Deu tudo certo, apesar de todos os debates e discussões.  O passeio foi bonito, percorremos a cidade, respiramos os ares do melhor parque do mundo, os teatros, as compras e encontramos,  nos labirintos das ruas numeradas,  os restaurantes. Tudo isso,  apesar dos percalços.

Eles existem e devem existir. Pior seria se tudo fosse sempre dentro dos conformes, se a hipocrisia ingressasse de vez na nossa vida e ditasse as regras e maneiras. Sim, discutimos, brigamos, tentamos impôr nossas idéias, mas com o necessário e devido respeito- ma non troppo. Mesmo para embalar uma fatia de pizza num restaurante portoriquenho depois de uma peça de teatro.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Êxtase Absoluto


Acorda, acorda  e escuta, amor, o acorde que toca lá fora, ele reveste o verso, tem brilho, tem harmonia.

A formatação é sincera, sob forma rítmica, um pouco acelerada, eu sei, mas nem tanto, nem tanto.

Parece incorporar a forma, as raízes, teus olhos escuros, quase obscuros, capazes de me cegar.

A memória que falha, a  menina que canta, o vestido que encanta, reveste a parede de cor tão formosa.

Mergulha, mergulha, meu bem, no clímax sincero, ri um pouco, como forma partida de dor mal dormida.

É hora de enfrentar o presente, o norte, o desgaste, o rumo forte de passos quase descalços.

Levanta, levanta, marcha marcada, de olho no nada, são poucas as boas, movidas em fé.

Pobre engenheira que mede as maneiras, os cantos do nada, as casas quebradas, as louças vazias.

Não boceje nem nada, querida, lave e leve o lenço úmido para o silêncio do dia, faça a gloriosa trajetória.

Eu te empurro, como sempre faço, te forço, te sufoco, te obrigo a sentir o êxtase.

E depois, quando tudo chega ao seu final, eu peço desculpas, muitas desculpas por te manter acordada.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Fucking Angry


Não se pode -- jamais, nunca, never -- perder a dignidade. Isso é o que a vida nos impõe.Temos de ser dignos, ponto final. Não podemos, sob hipótese alguma, fugir desse norte. É assim que deve ser, está estabelecido, está escrito nas escrituras.

Não podemos ser profanos, não podemos criticar o que não pode ser criticado, temos de nos comportar, nosso dever é sempre manter a linha, não deixar ela ficar torta, porque é essa a estética da vida.

O belo é belo e não se discute. Exite o belo, assim como existe o feio. O belo deve ser admirado, o feio foi feito para ser criticado. A arte bela deve ser exposta, o que é horroroso deve permanecer na escuridão do vazio.

Estou dizendo essas coisas apenas por dizer. Quem se interessar que leia; quem não se interessar que dê um clique e vá embora.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Umbigos




Sábado de noite, do alto do andar de cima ela ouvia a conversa dos meninos na sacada, na verdade, eles são homens de 30 anos. Ela, com seus 40,  nunca tinha presenciado uma conversa masculina explícita do tipo fulano é o tal porque comeu a gostosa e tesuda da  beltrana; as mulheres são chatas porque não têm senso de humor e coisa e tal.

No dia seguinte, impressionada, ela me comunicou que estava tomando uma decisão importante, não confiava mais nos homens. Por quê, perguntei, ora, ela me respondeu,   porque eles são interesseiros, insensíveis e só pensam no seus próprios umbigos.  Eu disse, nem todo o homem é assim, como tudo na vida existem as exceções. Ela me interrompeu, tu também és assim. Tu és como eles.

Fiquei a pensar sobre esse veredito. Será que sou assim? que todo homem é assim? será mesmo que a nossa genética, nosso metabolismo, nossa cultura têm essa capacidade impressionante de nos moldar de acordo com uma forma, sobre a qual estamos irremediavelmente presos?

Consultei os astros, fiz oferendas, ingressei no curso intensivo de sensibilidade e estou a aguardar alguma resposta, algum resultado. Por enquanto meu coração está cheio de dúvidas.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Cronologia


De repente encontro um  nome, vejo a face marcada  com rugas em volta dos olhos, as mãos entrelaçadas e envelhecidas, minha curiosidade atiçada, pois tento olhar melhor, aceito a ajuda de uma lupa, fixo os olhos cansados  para encontrar algum detalhe que possa ser um pouco mais significativo, mas a imagem um tanto discreta não é de boa qualidade, talvez tenha sido atingida pelo mofo das horas.

Além do Ordinário


Pobre de mim, diz o outro. Pobre de ti, digo eu. E deus fez o silêncio da reflexão. E ele também criou a voz, o espanto e a sensibilidade. Os insensíveis devem fazer um curso, porque na vida é necessário transcender. Ontem no jantar me avisaram que só poderemos julgar os outros se usarmos por alguns dias a suas sandálias. Eu não gosto de usar sapatos alheios e também não tenho muita vontade de fazer cursos de sensibilidade. Dizem que sou burro, porque critico os ditos progressistas, mas me considero liberal, até um pouco liberal demais. Verdade seja dita, é muito complicado chegarmos a uma solução mágica, porque as peças simplesmente não se encaixam. E não adianta contratar os escultores ou os alquimistas, elas não foram feitas para serem encaixadas. Nos afogamos nessa desordem capenga, administrando as crises da consciência e tentando sempre achar a senha da contemporização. Nunca resolvemos a fundo, porque o fundo é muito mais profundo do que se imagina.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Sonhos Auspiciosos


Sugo os detalhes, apaixonados detalhes, da mão macia sobre o  terno cinza enquanto dirijo em direção ao esquecimento. Sopro o vento que  bate de frente enquanto durmo na imensidão do leito que escolhi para um pouso repentino. Leio as escrituras, sagradas leituras de um livro quase bíblico numa tarde quente, quase ensolarada, onde percebo que tudo o que me foi dito nada mais significa. Não choro, nem desanimo  apenas percebo, porque na minha intimidade consigo, apesar de tudo, dar um trato na minha desordem. As prateleiras estão cheias, os labirintos não chegam mais até lá, e por isso me perco enquanto me balanço num sono vazio, quase alucinante, navegando em metáforas.

Erotizando Um Laço Vermelho


disca o nome pela tua vez
nem sempre na ordem
dessa desordem
cai o pano
em torno do  pescoço
arroxando
marcando profundo
o que já está
extremamente fundo
no alto  do espelho
reflete a face
tímida proclamando
esperança.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Cactos


No quarto escuro da minha cegueira rememoro. O detalhe da  doce e inocente   mão que limpa o  líquido branco derramado sobre o  estofado. Somos feitos de esquecimentos, simplesmente esquecemos, isso faz parte da nossa engrenagem, porque somos chamados a resolver outros assuntos pendentes e quando tempo passa, quando o relógio marca meio dia corremos para o banheiro colocar as lentes da nossa visão. E a ardência é imediata, o colega de escritório alertou, mas  irresponsavelmente tomo a estrada e no meio dela paro, na praça de pedágio, aguardo socorro, meus olhos incendeiam enquanto tomo, vejam só, milkshake de ovomaltine.

Um  cactos, daqueles que aparecem nos filmes do Leone, um simples cactos sem espinhos, mas com sangue branco que mancha o estofado do carro. Daqui da sala da escura da minha cegueira contemplo ele lá fora, na sacada, olhando para mim, como se fosse um alien, esperando a hora certa de dar o bote. Não tenho jeito e nem aparência física de Sigourney Weaver, nem suas ferramentas para combater alienígenas, mas aqui, com minhas pomadas e colírios alucinógenos estou alerta, sempre atento.

O  louco de Ray-Bann que circula pelos banheiros lavando o rosto e que nunca fica quieto porque se desloca de lá para cá, a dor é tanta que ele não sabe o que faz, mas   senta  solitário na sombra de uma árvore caduca enquanto bebe o milkshake gelado. Espera, aguarda, espera o socorro que tarda a vir e que, depois de horas, chega e gira a ignição do carro que parte em direção ao litoral.

Dos colírios da minha cegueira percebo os erros que contaminaram meu dia, foi apenas um dia, simplório dia, que ficará guardado nas prateleiras da minha memória. Escrevo isso enquanto estou sozinho, porque meu pessoal foi para a praia, mas ouço ruídos na sacada.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Relativo



Quando ventila
e faz o mote
que dá azo
ao que tudo parece
mas intriga
e por isso
o velho jogo de palavras
nada significa
porque o significado
não tem significância
depois desse chavão
paramos todos na inércia
de que tudo pode acontecer
até o choque da melancolia
o riso gostoso da puberdade
a velocidade espantosa do tempo
que passa e já aconteceu
e nos deixou
ficando para trás
como sempre foi
e como sempre será.

Eu vi


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