Buscando não se sabe bem o quê.
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Sensação
A boca que toca
suavemente
na cerâmica trabalhada
no desenho da borda
em toda sua espessura
e sente o calor
do líquido
e do aroma
que faz lembrar
algo esquecido
na infância
primeira
segunda
ou terceira.
Terapia
A angústia deixou para trás, porque passou 42 minutos no divã da terapeuta, da psicanalista ou da psicóloga onde aprendeu a olhar mais para si, apenas para si, somente para si. E saiu do prédio com a sensação esquisita de leveza. E foi para o trabalho e trabalhou. E foi para casa e conseguiu se divertir. E no final da noite pensou duas vezes antes de dormir. E conseguiu dormir até o dia seguinte quando se levantou, tomou o café e se dirigiu ao trabalho. E quando lá chegou sorriu um sorriso tão forte e intenso que parecia algo cínico. E ninguém acreditou naquele riso.
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
Casa no Litoral
Perdeu a vontade de ser curioso. Olha pela manzarda esticando o pescoço que doi. Passa a mão seca e áspera onde sente a dor. Não é nada. Nunca é nada. O mar hoje está mais revolto do que ontem. Já é tardinha. A imensidão do vazio toma conta do vento que sopra forte em direção ao norte. A água cospe. O vento chia. Não existe aconchego no frio daquele lugar. A sopa quente de pacote é preparada no velho fogão duas bocas. Depois, caminha de chinelo curto e chambre longo até a varanda. Carrega consigo, também, o pijama rasgado que sobrou do armário da cidade. No apartamento da rua das Alamedas, no bairro nobre da capital. .São poucos os passos, mas novamente se encachaçou e por isso se equilibra como pode. Chega onde pensava chegar. Mas se esquece. Por que, afinal, estava ali? No jogo da memória aparece a velhice, mas não se trata disso. Ainda está na meia idade. Já fez história no serviço público estadual e um dia foi chamado de assessor especial do Procurador-Geral. Agendava com ele as reuniões com os sucessivos governadores, administrava os relatórios, corrigia a concordância e os erros de português. Foi antes de perder tudo. Quando o partido de oposição conseguiu vencer a eleição por apenas dois pontos. Depois de anos foi exonerado sem direito a aposentadoria ou pensão. Sobrevive numa casa sem espelho e sem notícia de jornal.
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Água Boa
Água boa pode ser morna
Pode ser fria
Pode até ser bem quente
Mas sem danificar os cabelos
Água boa é que molha o corpo inteirinho
e faz a gente suspirar
de prazer
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
Líquido
Fiel
Vá, vá e faça tua escolha. Seja franca, não redirecione, apenas encaixe as peças, como se fosse um cubo mágico e tudo pode ainda voltar ao normal.Não subestime a natureza dos outros e nem a minha, porque tudo pode ficar bem, mesmo que de forma esquisita. Vá e volte ou vá e não volte, mas vá.
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
Quando?
Ela abraça o aparelho porque está com saudades da voz.
A voz que ela mesmo esqueceu, porque não se lembra mais.
Do timbre, da colocação, da postura.
Mas ela espera, porque ela sempre esperou.
Porque assim a vida ensinou.
E ela se posta na cama adormecida a espera da ligação.
Que nunca chega e nunca vem.
A manhã aparece e o equipamento está sem bateria.
E ela recarrega ainda esperançosa.
Que ele algum dia ligue.
Perspicácia
Minha cegueira imensa, vazia, curta. Entra em mim e se apodera de todo o meu corpo. Quem dera um dia eu poder escapar de tamanha insensatez. Eu, um ser ingênuo, pobre e incapaz que cai na armadilha criada pela minha própria imagem e semelhança. Como se fosse um pequeno deus tonto, perdido em alma, em razão, em sentimentos baratos conquistados nas vidas diúrnas e noturnas. Por entre porres e bebedeiras, compromissos e reuniões. E assim me divido, e fico caminhando em contraste, deixando de assumir os meus próprios paradoxos.
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Atualizações
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
A Arte de Dirigir
Ela ficou p. da cara porque ele implicou. Ela disse bem assim: você está utilizando esse espaço para implicar comigo. Tudo começou por causa de uma mensagem ou de um post sobre o ato de dirigir. Ela defende a inusitada tese de que o bom de dirigir é andar nas grandes avenidas livre, leve e solta e ouvir uma boa música, mas na hora de estacionar, é muito chato, é muito ruim, é muito estressante. Ele, ingenuamente, fez um comentário de que dirigir é uma arte e que, portanto, não é algo que possa ser bem executado por qualquer pessoa. O ato de estacionar exige calma e disciplina e não se pode ficar estressado por conta de carros que buzinam ou motoristas que ficam possessos, porque um carro está simplesmente estacionando. Estacionar é um direito. E além disso, é uma arte. Um carro bem estacionado é como uma pintura, um belo texto ou uma escultura maravilhosa. Não é fácil para o motorista ou a motorista (sim existem boas motoristas, eu acho) inserir seu veículo num espaço pequeno e manejar, manejar, manejar até deixar aquela coisinha 10 centímetros da calçada. Isso não é para qualquer um, tem de ser um artista, tem de ser expert. E por conta disso, ela ficou muito indignada com ele. E ele riu, porque ele sempre ri quando ela fica uma fera.
O inspetor, atentamente, ouviu toda a discussão e, depois de tirar o palito da boca, tomou nota no seu caderno encardido.
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
A Última do Inspetor
Pois o inspetor -- que andava cansado e aposentado -- foi chamado para uma tarefa das mais difíceis e inusitadas. E lá se foi ele com seu caderninho e lápis na mão, com seu capote bége, seu terno mal engomado e a famosa gravata roxa que era de seu pai, mas isso não faz parte dessa história. Na verdade, ele recebeu um chamado de um certo sujeito. Estacionou o maverick bem em frente ao local indicado, porque o inspetor é mestre na arte de estacionar, e apertou a campainha. O tal sujeito veio ao seu alcance. Olha, tá tudo muito esquisito. Ele simplesmente parou de reclamar da vida e passou a viver com sorriso no rosto. Dá gargalhadas espontâneas e nunca mais voltou a falar em sofrimentos, angústias, lamentos e ressentimentos. E ela, tadinha, perdeu a paixão de ler e está sempre preocupada com ele. Acha que ele vai ter um treco, que ele não tem idade para essas coisas e não sabe porquê motivos ele anda tão tresloucado. O inspetor olhou fixo para o sujeito e pediu um café. Olhou para os cantos, olhou para os lados, tirou do bolso o palito e enfiou por entre os dentes amarelos. Em seguida, anotou no seu bloco de notas algo que não se pode bem identificar enquanto degustava o café quente com muito açucar. Depois de tantos minutos ele se levantou, caminhou até a porta e exclamou em tom firme, porque o inspetor sempre foi muito seguro de si. O senhor, por gentileza, pode abrir a porta para mim? O sujeito - meio sem o quê dizer -- perguntou? E aí, o que está acontecendo? A vida é assim, tem horas que as pessoas pensam em transgredir e isso não é nada grave.
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
A Perceptível Diferença da Densidade Ótica
Ele não desiste, porque sempre foi assim e continua a falar para ela que sofre. Que sofre muito, que sua vida é um desatino, que tudo é difícil, muito complicado. E ela tem uma paciência de cão e engole sempre, porque nada comenta, nada critica. Apenas anui balançando a cabeça de cima para baixo enquanto lê um livro saboroso. Satisfeito, ele vira para o lado e dorme.
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
Passagem
Um dia se desce a ladeira do mal entendido. E tudo fica razoavelmente limpo até que uma nova onda chega e leva todas as estruturas criadas para o outro lado da tempestade. . O peso da idade carrega as articulações para o lado da dor. Por motivos de dignidade, solidariedade e sobrevivência uma dose é aplicada. E a paisagem muda, são imagens do passado mais antigo. É uma bela sensação de "deja vu" que leva e parece constante. Envelhecer é algo completamente mágico. Nos últimos tempos disfarça as mãos enrugadas com a manga larga da camisola rosa envelhecida pelo uso e a doença. A tosse que atormenta as glândulas internas na hora do fumo. E o esquecimento constante de recapitular a primeira infância. Não a fase do berço, das mamadeiras e do estojo escolar, mas a pré adolescência tardia. No momento, os meninos e as menina correm uniformizados sem direção pelo pátio da escola enquanto a pequena bruma desce trazendo consigo um ambiente sinistro, mas muito belo. Era bom estar ali. Eles jogam bolas: pequenas, grandes, de gude. Elas pulam as cordas. Encantada teve a sensação de acordar, porque batia uma luz clara típica do amanhecer. Olhou para o lado e percebeu que estava incrivelmente leve no seu quarto de menina, a mesinha decorada com os livros encadernados, o ursinho que aquecia sua cama. Sua pele estava mais macia, as unhas bem feitas, os cabelos encaracolados, bem do jeito que mamãe insitia em fazer. Teimosa chamou seu nome e sua voz foi desaparecendo feito vento no frio. O tempo finalmente passou e ninguém apareceu, porque ninguém ouviu. Porque não se pode ouvir os movimentos de um corpo que já não existe mais, cansado, exausto e que aguentou até o fim. Pois esse é o sentido da vida.
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quarta-feira, 25 de agosto de 2010
Thanks, Mr Barret
O homem seguiu as indicações do GPS até chegar ao local aguardado e, finalmente, devolveu o carro alugado. A família saiu apressada carregando as três ou as quatro malas pesadas e a câmara ficou. As imagens foram salvas, mas o aparelho ficou perdido no meio dos bancos. Muitos carros entravam. Mais do que se imagina. Fazia calor de 35 graus. Ele se deu conta da perda e resolveu procurar na imensa garagem o malibu dourado que já havia sido levado. Encontrou três Malibus idênticos, mas com placas de outros estados ou com características diferentes. Depois de 15 minutos circulando no meio de todos os carros devolvidos ele encontrou o que procurava no local mais sinistro do estacionamento. Os papéis, a lata do energético, do Sprite, os mapas da Flórida, estavam todos no chão. A velha máquina de fotografia não foi encontrada. Eles haviam encontrado e levado.
Cientes da perda, eles ingressaram imediatamente no aeroporto carregando as malas até o ponto de ônibus que os levariam para outro setor. O suor corria por todos os rostos. Estavam todos molhados e cansados. Muitas compras foram feitas nos outlets e lojas localizadas estratégicamente nos parques. O peso estava mais do que pesado. Ao chegar no terminal principal foram direto ao check in automático que não lhes deu resposta. A senhora da companhia, chamada Nancy, tentou fazer o check in manual e o resultado foi que eles tinham de se apresentar em 15 minutos em outro aeroporto distante 500 km, sob pena de no show. As passagens reservadas e compradas não teriam mais valor.
Foi quando apareceu o Mr Barret que tomou de Nancy o comando da situação. Determinado ele começou a digitar com seus negros dedos os teclados da companhia enquanto mordia, de forma firme e segura, um velho e usado palito. No fim, o Senhor Barret conseguiu resolver quase todos os problemas e uma multa de 200 dólares foi paga imediatamente, via cartão Amex.
Todos ficaram satisfeitos e agradeceram ao Mr. Barret, até mesmo o guri.
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