Buscando não se sabe bem o quê.

terça-feira, 21 de julho de 2009

O Bolo




A enorme delicadeza não permite assistir a nenhuma derrota. Imperdoável. Bela frase para se começar. Enquanto mexe o a massa que forma o bolo pensa. Reflete, faz "feed back", ingressa nos tormentosos tempos de ontem. E lá no fundo, na memória esquecida, pinça um pequeno diálogo que aconteceu nos tempos da casa velha e que agora se reveste de sublime importância. Tudo exato, o clima perfeito. Adiciona na pasta uma boa porção de chocolate em pó, aquele do padre. Prova a pequena mostra do sabor amadurecido da pasta negra. Está boa? Tanto melhor. É hora de entrar em alfa, em beta, um 'insight'. O personagem diz: tudo não mais será como era antigamente. Perfeito. Já ouvi algo parecido em outro lugar. Mais um chavão para amenizar o clima: é preciso superar os limites para se poder mudar. Belíssimo, poderia acrescentar: os limites dependem da gente. Santa inocência. Agora, um finale apocalítico: tudo isso pode ser o começo ou o fim de tudo ou de nada. Filosofal. Um detalhe existencial não pode ser esquecido: amanhã nada disso será recordado. Uma metáfora: são cinzas pintadas na memória e que serão apagadas com as cores do dia a dia. Poético demais para o meu gosto. E o bolo, afinal, ficou pronto? Tanto faz, porque assim alimentamos o nosso bem estar adicionando doses e doses de ingredientes. E assim termino no meu vazio determinista: ficamos satisfeitos, até que uma nova crise venha a nos acompanhar. Quem vai comer o bolo? E quando isso ocorrer será preciso colocar a mão na massa e criar um novo bolo -- que será repartido e comido por todos. Tá bom.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Rádio Pampa




Engraçado. Coloquei a foto ali abaixo, porque já tive um gravador como aquele. Não era Sony, era Panasonic. Sempre gostei de 'cachinhas de música'. Quando tive meningite e fui internado no hospital, ele foi meu companheiro. Gravava as músicas da rádio pampa ou da continental. E no meio da música, o locutor dizia. Pampa... E depois.... nas reuniões eu me gabava que tinha todas as melhores músicas. E apertava no play, a música tocava, a batida era boa e o locutor -- com sua voz estridônica -- anunciava: Pampa.

Quando Nossa Chama Fica Acesa




Estão dizendo um monte de coisas. Na tv o fato do momento é que uma criança de 5 anos caiu da sacada. Os pais foram presos. A cena foi filmada. Eu desviei meu olhar. Resolvi fazer outra coisa. Depois dos comerciais outra notícia. Um empresário foi morto na frente da família. Testemunhas não querem testemunhar. A impunidade reina. Resolvo não sair com meu cão. A noite está muito fria e tudo está muito violento. Quero ficar na minha paz. E assim a gente se encolhe. Transformamos nossa casa no nosso mundo. E um dia a gente percebe que estamos sozinhos. Então, debaixo da minha solidão eu vejo o mundo pelas lentes da tecnologia. Tudo é filmado, fotografado, gravado: a menina que caiu, o assalto ao banco, o audio da corrupção. E os pais da menina foram presos porque foram omissos. Certo ou errado a pena é injusta diante do nosso contexto. Mas assim funciona nosso pais. Nosso estado putrefato da burocracia que emperra tudo. E minha revolta não dura muito. E resolvo me anestesiar ouvindo uma balada lounge. A batéria é muito certinha, o baixo também. A mulher sussura como música francesa. É para ser sexi. E conforta. O tempo está feio lá fora. E o mundo muito violento.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Requisitada




Um dia chamei Dora para comer num restaurante chique em Copacabana. Feliz ela foi. Ela falou sobre ela. Sua história triste de infância. A vida na Tijuca, na Lapa, no colégio, nos botecos, seus homens e suas mulheres. Mulheres? Sim, mulheres, ela respondeu naturalmente, erguendo com delicadeza feminina o cálice do bom malbec. Você é muito requisitada, arrisquei. Vi que ela não gostou, mas disfarçou. Sou mesmo. Todos me querem, todos me desejam, mas não sou fácil. É que eu enjôo. De manhã cedo quero ir para casa, cuidar da minha vó.

Na manhã seguinte ela levantou, colocou minhas havaianas, fez café, arrumou a cozinha, tomou uma ducha e se foi. Eu pago o taxi para você. E dei uma nota de cem. Ela sorriu, deu um beijo e foi embora.

Circulando pelo Lavradio


Quando cheguei ela ficou olhando, enlouquecida. Ela estava ligada, completamente ligada. Não sei se tinha amigas ou amigos. Se estava com alguém ou não estava. Isso pouco importava. Eu queria ela e ela estava a fim de mim. Comecei a me preparar. Tomei um gole - dei um trago e me aproximei. Ela sorriu. Eu disse: isso facilita. Eu sei, ela disse. Qual teu nome? Dora, moro com minha avó, que é cega. Eu pensei em dizer, "ainda bem", mas achei que não era conveniente. Legal. Você vem sempre aqui? Tô aqui direto, disse ela. Estou sempre nas bocas da Lapa. Quer me encontrar circule pelo Lavradio.


Foi assim que encontrei Dora, isso faz uns cinco anos. A gente se encontra quando resolvo circular pelo Lavradio. Acho que ela me detesta, porque eu simplesmente desapareço. Dou um tempo, três ou quatro meses e resolvo circular pelo Lavradio. E lá está ela, sempre linda, olhando enlouquecida.

domingo, 28 de junho de 2009

Tunel do Tempo


Super heroi de papel eu mesmo fiz
Assobia
Porcelana dourada quebrei e gerou a primeira angústia
O enigmático castiçal -- dizem -- roubado da igreja guarnece a residência
A velha colher empenada alimento de banana esmagada
Eu quero teu cheiro
Antes da chuva recolho as bolinhas de gude espalhadas no quintal
Eu sempre perguntava: do que vou brincar? E decidido corria para a mesa de botão
Organizo meu campeonato.
Amanhã vou inaugurar minha nova merendeira azul


E depois de ter vivido tudo
Ainda sinto vontade
de debruçar no parapeito da janela
que abre e se fecha com impressionante rapidez
E vai e volta como se tudo fosse um limite
Colecionando os objetos que toquei
Fazendo reviver na minha memória
O gosto do bastão de leite desmancha entre os dentes da boca
Deitado conto a história assisto a velha tv de válvula
No ar o seriado que mais gostava
O túnel do tempo.

Máscara Moderna


Enquanto a prova não vem ele olha a bunda da mulher na cozinha. E ela, com cabelo cortado, lava os pratos com delicadeza. Ele contempla o bem estar daquele momento. Finalmente ele se encontra leve, mas angustiado. É que nada nesse mundo é tão perfeito assim. Existe sempre uma pedrinha no sapato que atormenta os pequenos detalhes. Não basta tirar o tênis e voltar a correr, porque os pés já estão com as marcas do sangue. Amargurado ele se retira e nega o convite para comer. Mas ele está bem, pelo menos está leve. E ele se equilibra distante economizando os sentimentos reprimidos de sua insanidade.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Quebrando Promessas




Eu disse aqui uma inverdade, um segredo que Dora me contou. Sou amigo dela. Apenas amigo. Sou diferente dos outros. Eu não quero conquistar Dora. Não tenho prazer com isso. Eu quero apenas contar suas histórias que ela me confidenciou. Eu jurei para ela que não contaria para ninguém. E estou quebrando essa promessa. Acho que ela não vai entrar no mundo da blogosfera e descobrir que eu falei mal dela por aqui. Assim espero, porque ela é uma criatura bem legal e não merece ser tão exposta assim. Eu disse uma inverdade sobre Dora. Disse que ela teve um namorado chamado Toninho, Tonico ou coisa assim. Ela me disse um dia, quando já tinha tomado algumas num buteco da rua do Lavradio que nunca namorou ninguém. Eu duvidei. Ela jurou. Ela disse que não gosta disso. Que ela gosta mesmo é de sair e conhecer os caras. As vezes ela não sabe nem o nome. Simplesmente ela sai, ela fica, ela gosta, ela goza. Eu nunca tive nada com Dora e nem vou ter. Ela é minha fonte de energia inspiradora, uma musa indecente que descobri por ai, percorrendo as calçadas tóxicas da vida.

O Ecochato




Não quero colocar o colete colorido do Minc, nem a tanga de crochet do Gabeira. Não vou fazer protestos contra os navios japoneses que pescam golfinhos no pacífico e nem vou queimar plantinhas de eucaliptos. Eu vou me tornar..... aliás, já me tornei um ambientalista. Um ecologista da sensatez. Meu professor me ensinou e eu anotei: ambientalismo não combina com radicalismo e intolerância, tudo gira em torno do controle sobre o risco e o princípio básico é o da precaução e da prevenção. O ambientalista tem de ser razoável, é necessário saber mitigar, compensar, conversar, conciliar. Por isso, eu resolvi ser -- e já sou -- um "ecochato" da paz. Um tolerante.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Dora





Eu não poderia deixar de falar em Doralice. Pois bem, quando ela tinha 16 ou 17 anos ela resolveu se chamar Dora. Isso mesmo, Dora a carioca, torcedora do Vasco, abandonada pelo pai, pela mãe e que vive na Tijuca na casa da avó -- que é cega. Namoradeira até o infinito. Nessa época ela já não era mais menina porque tinha conhecido e namorado o Toninho e depois pintaram no pedaço o Souza, o Glênio e o Talarico. Olhos bonitos, cabelos cumpridos, unhas pintadas, salto alto, nem menina e nem mulher, simplesmente Dora. E ela arrasava, sempre teve charme, sabia falar, se expressar, não era tímida nem nada. Era fácil, mas quem não é? Não tinha amigas, nunca teve, nunca gostou das mulheres, apenas dos guris, dos rapazes, dos homens. Mas eles também não eram seus amigos, porque contemplavam seu corpo, se excitavam com sua voz e sua malícia. E ela, maliciosa, sabia encantar. E encantava. Todos ficavam admirados e a cortejavam e ela sempre foi o centro absoluto dos desejos. E no fim da noite, ou no dia seguinte, de manhã cedo ou de tarde, ou até mesmo no fim da tarde, ela voltava para o velho apartamento do prédio descascado da rua Ubarana, ali perto do morro do Carrapato. Dona Inês, sua avó, nunca resmungava, nunca reclamava, apesar da pouca idade da neta. Sempre deixou a menina solta pelo bairro. E ela sempre se soltou. E continua solta.

O Pretensioso




Um dia - lá no meio da minha linha - estabeleci duas metas auspiciosas. A primeira é que eu seria eterenamente um sujeito saudável, a segundo é de que a felicidade nunca me faltaria. Passei anos da minha vida pensando nisso, até que um dia esqueci. E fiquei doente. Hoje, já no fim da vida, olhando os ponteiros do relógio esperando o fim do dia passar eu posso dizer -- do centro do meu trono -- que saúde e felicidade não se compram. Parece que estou dizendo o óbvio, mas não estou. Porque é difícil entrar na cabeça de um infeliz que felicidade e saúde se completam. Mas é necessário dinheiro para ter uma vida feliz. Infelizmente eu acredito nisso. Não estou falando de um vivente rico que despeja grana em todo lugar que vai, que vive uma vida de esbanjamento, arrogância, esnobismos e ganância. Não é disso que estou falando. Tudo na vida cai na medição da razoabilidade. Quando uma pessoa deve ganhar para viver razoavelmente? Isso tudo é relativo, porque a vida que a gente leva é uma sessão constante de mitigação. A gente está sempre se equilibrando com as finanças, com a saúde e com a felicidade. Mas eu cheguei a um ponto na vida que esqueci de tudo isso. Resolvi jogar tudo pela janela do edifício mais alto da cidade fria e mandar tudo às favas. E disse para mim mesmo. De agora em diante chega de responsabilidades, privações e controles. Vou viver a vida, porque ela está chegando ao fim. E aqui estou doente, infeliz e miserável.

domingo, 21 de junho de 2009

Doralice




Cansadinha Doralice rompe suas feridas. Seu olhar parece perverso, mas não é. Ela guarda ressentimento, porque foi largada. Diversas vezes foi largada. E agora está largada. Ela guarda mágoa de todos. Mas sua beleza conseguiu conquistar certos espaços. Ela percorre escorregando e se equilibrando. Afinal, ela sempre aprende. Foi essa a receita que a vida lhe ensinou. Doralice muitas vezes passa por estúpida e mal educada. Uma ou outra vez ela conheceu as sogras que sempre a rejeitara, Ela não era considerada uma mulher de nível. E Doralice sabia disso. Sempre soube. Sua mãe já avisara que a vida é assim. É necessário conquistar os espaços. E assim fazia Doralice. Assim ela faz.

Quanto Vale Sua Vida?




DVD para carro, monitor de 11 para assistir vídeo no banco traseiro. 1500
Monitor acoplado com controle na tela, tecnologia de primeira linha. 4.000.
Notebook compacto, com tela de última geração, perfeito: 2.500.
Plottagem automotiva opaca, cor preta, efeito impressionante: 2.000.
Almoço em churrascaria, duas cervejas importadas, sobremesa e taxa de estacionamento: 150.
Livro indicado pelo professor para acompanhamento de curso de mestrado: 100.
Livro sobre Canudos do autor favorito da princesa. 35.
Taxa da associação de pais para organização de festa junina na escola: 50.
Remédio para baixar o colesterol, 78.
Shampoo para reduzir queda de cabelo. 80.
Botinha para a princesa. 200.
Refrigerante isotômico para tomar depois da corrida: 2,5.
Pastilha anti-ácida para tomar depois de uma noite de vinhos: 6.
Vinho chinelo, uva carmenére, reserva. 50.
Vinho argentino, uva malbec, de entrada. 30.
Carré francês de cordeiro, 20.
Revista com as últimas notícias do Ben 10 e do "uma noite no museu 2".,10.
Máscara do Homem de Ferro. 30.
Flores para a princesa. 20.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Por um Instante




Todos passam no fim da tarde chuvosa, a menina chora. Doralice tenta esconder sua amargura, mas não consegue. Ela não está na sua casa. Se sente só. Está desamparada. Aflita ela derrama suas lágrimas no vestidinho vermelho, mas ninguém ouve. Os tambores e atabaques do terreiro batem forte. É uma canção de magia, de vudu, de adoração aos deuses negros, africanos. É o Rio imperial que volta a viver. E a Lapa dança no meio da urina e das latas na noite carnavalesca de fevereiro. A nuvem escura desce e água chuvosa se espalha pelas calçadas tóxicas. E ali caminho eu, no fim de tarde, descendo de Santa Tereza em direção aos arcos e a Glória. Não ouvi o choro de Doralice, mas pressenti sua angústia e sofrimento. Eu também estava embriagado. E lá me fui em direção ao trem que me leva para Copacabana.

Eu vi


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