Buscando não se sabe bem o quê.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Transpassando




O colecionador de detalhes abaixou o volume do rádio. Tinha de se recompor. O baque foi forte. Ele estava atônito. Sua mão cansada não conseguia mais mover o teclado. Ele precisava dizer alguma coisa para alguém. Mas todos já haviam partido. Simplesmente se foram. Apagou a velha lâmpada do abajour e ficou em silêncio esperando uma idéia, uma saída, uma solução. Não conseguia adormescer. Sentado e triste ele admirou a penumbra da noite temperada. Os detalhes das silhuetas, o som do silêncio, a cor do escuro. As pálbebras caíram sobre a face. Ele, enfim adormeceu. E acordou no elevador, no décimo andar. Apertou o térreo e o elevador subiu, subiu e subiu. Não mais parou, ele continua subindo a espera que a porta abra. Trancado ele descobriu todo o caminho de sua repressão. Sempre fora um reprimido. E nunca assumira como tal. Era hora, portanto, de extravazar, de vazar para fora, mas ele estava ali trancado, deprimido, no recanto sigiloso de um elevador vazio esperando a porta abrir para ele, afinal, sair.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Utopias




O marquês de Ygartua mora no último puxado do velho sobrado, herança de sua familia, onde ele montou todas as estruturas de seu domínio. Ele quer controlar todo mundo, mas não controla ninguém. E quando desce as escadas, com seu olhar implicante, tadinho dele, ninguém lhe dá a mínima pelota. O pequeno está entretido com o novo jogo simulador. A mulher sofre de dores infernais e sentada na cama descansa enquanto vê os filmes de mulherzinha. O jogo terminou e ele não tem nada a fazer. Ele sente uma insuportável vontade de dizer alguma coisa. Inventa uma história maluca e ninguém lhe dá o menor ouvido. Faz estardalhaços em torno de uma notícia irreal apenas para brincar mais um pouco. Mas ninguém esboça nenhum sorriso. O nobre e ilustre fidalgo - exausto - sobe a escada e retorna aos seus aposentos do último puxado e sonha: amanhã será um novo dia.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Ainda Esperando


Eu poderia falar de Dora, poderia falar do inspetor, mas não posso, pois tenho de atender o telefone.

Ontem fiquei uma hora esperando numa sala de espera. Peguei o celular e descobri um joguinho que forma cidades. Construi dezenas de edifícios, um maior do que o outro. Fiz até um imenso prédio de 50 andares. Parecia arranha céu de Nova York. Eu -- que queria tanto ser atendido -- rezava ansioso para não me chamarem, queria ficar ali mesmo esperando, esperando...

No local de atendimento, no andar de baixo, havia um aviso. Se você está gripado utilize as nossas máscaras.

Esperando


Imaginava comer no almoço sopa de letrinhas, mas fiquei preso no escritório por conta de uma nota que tenho de pagar. Minha secretária não chega, deve estar no almoço comendo sopa porque faz frio. Ela tem o comando do cofre, do talonário, até mesmo das canetas. Mas ela não tem o poder da assinatura e, portanto, minha sopa de letrinhas fica para o início da tarde.


Ah, sim, a imagem acima não tem nada a ver com o post. Eu pesquei de um concurso sobre a máscara mais interessante para conter a gripe A.

sábado, 25 de julho de 2009

O Cara Certo




Não me sinto enraivecido. Sou daqueles que gosta de flores. Sim, eu tenho respeito pelas pessoas. Acredito na conversa, no bom diálogo. Acho que no fundo as pessoas se entendem. Basta conversar, ouvir, escutar. Eu não me considero um homem difícil. Sou até muito fácil, afável, sensato, crível, tolerante e razoável. Apelo sempre para a convergência. Mas eu tenho minha opinião. O que fazer se penso o que penso? Posso até estar errado e também reconheço meus equívocos, que não são poucos. Assumo minhas besteiras, minhas ironias, minhas implicâncias. E eu tento mudar. Dizem que eu não mudo, que minhas neuroses infantis estão incrustadas no meu corpo. Falam que eu tenho de me tratar. A física nos ensina que estamos em constante evolução. Eu também evoluo. Eu sei que tem horas em que eu me torno complicado -- essa palavra vazia que não diz nada, mas diz tudo. Tenho minhas manias, minhas crises de autoridade. Quando chega um brinquedinho novo eu fico fascinado. Se é uma caixinha de música, então!, eu fico entusiasmado e me debruço nela para inserir mais e mais discos. E passo horas fazendo isso, perdido em mim mesmo. Quem pode entender uma criança que ganha um super presente? O aspecto lúdico da vida não existe apena na infância. Mas minha infância já se foi. Os cabelos brancos começam a aparecer. Os óculos são meus companheiros. Minhas pernas não correm mais como antigamente. Hoje enfrento a maturidade e, portanto, ouso deixar de lado minhas implicâncias infantis para cuidar da razão. Esse é meu dever. Tento ser solidário e responsável, mas sou incompreendido, porque não resolvi as obscuridades da minha infância. Minha vida admirável se resume a esse equilíbrio interno que faz parte do meu cotidiano. Tento ser perfeito, mas não sou. Não sou o cara ideal, sou apenas o cara certo.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Boa Neta




Dora me liga e conta de sua avó. Ela está doente, gripada e precisa de medicamento. Ela está sem grana e precisa de dinheiro. Não consigo resistir aos encantos dela e marcamos de nos encontrar num bar ali perto do aterro do Flamengo. O local estava agradável, era fim de tarde e o movimento aumentava. Peço um chopp, afrouxo a gravata e fico olhando o movimento. Nisso, vejo Dora entrando com cabelo novo e visual contemporâneo. Nossa, Dora, como você mudou? Eu faço isso para agradar aos fãs. Ela me disse que entrou numa nova era, numa nova época, que passou a cuidar do corpo, que tentava fazer Ioga, que arranjou um namorado rico e surfista que passava o tempo todo em Saquarema, que parou de fumar e beber por uns tempos, mas que tomava um chopinho comigo só para me acompanhar, que ganhou um perfume de seu chefe que está dando em cima dela, que ela não é fácil, mas que ela não é difícil, que ela é assim assim, mas no fundo, no fundo, ela é uma boa neta. Rimos à vontade até que a noite chegou. Eu disse a ela. Tome, pegue essa grana aqui por conta da nossa amizade. Mas não vicia. Você tem o meu telefone, liga quando puder. E lá me fui em direção à zona sul.

O Bolo




A enorme delicadeza não permite assistir a nenhuma derrota. Imperdoável. Bela frase para se começar. Enquanto mexe o a massa que forma o bolo pensa. Reflete, faz "feed back", ingressa nos tormentosos tempos de ontem. E lá no fundo, na memória esquecida, pinça um pequeno diálogo que aconteceu nos tempos da casa velha e que agora se reveste de sublime importância. Tudo exato, o clima perfeito. Adiciona na pasta uma boa porção de chocolate em pó, aquele do padre. Prova a pequena mostra do sabor amadurecido da pasta negra. Está boa? Tanto melhor. É hora de entrar em alfa, em beta, um 'insight'. O personagem diz: tudo não mais será como era antigamente. Perfeito. Já ouvi algo parecido em outro lugar. Mais um chavão para amenizar o clima: é preciso superar os limites para se poder mudar. Belíssimo, poderia acrescentar: os limites dependem da gente. Santa inocência. Agora, um finale apocalítico: tudo isso pode ser o começo ou o fim de tudo ou de nada. Filosofal. Um detalhe existencial não pode ser esquecido: amanhã nada disso será recordado. Uma metáfora: são cinzas pintadas na memória e que serão apagadas com as cores do dia a dia. Poético demais para o meu gosto. E o bolo, afinal, ficou pronto? Tanto faz, porque assim alimentamos o nosso bem estar adicionando doses e doses de ingredientes. E assim termino no meu vazio determinista: ficamos satisfeitos, até que uma nova crise venha a nos acompanhar. Quem vai comer o bolo? E quando isso ocorrer será preciso colocar a mão na massa e criar um novo bolo -- que será repartido e comido por todos. Tá bom.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Rádio Pampa




Engraçado. Coloquei a foto ali abaixo, porque já tive um gravador como aquele. Não era Sony, era Panasonic. Sempre gostei de 'cachinhas de música'. Quando tive meningite e fui internado no hospital, ele foi meu companheiro. Gravava as músicas da rádio pampa ou da continental. E no meio da música, o locutor dizia. Pampa... E depois.... nas reuniões eu me gabava que tinha todas as melhores músicas. E apertava no play, a música tocava, a batida era boa e o locutor -- com sua voz estridônica -- anunciava: Pampa.

Quando Nossa Chama Fica Acesa




Estão dizendo um monte de coisas. Na tv o fato do momento é que uma criança de 5 anos caiu da sacada. Os pais foram presos. A cena foi filmada. Eu desviei meu olhar. Resolvi fazer outra coisa. Depois dos comerciais outra notícia. Um empresário foi morto na frente da família. Testemunhas não querem testemunhar. A impunidade reina. Resolvo não sair com meu cão. A noite está muito fria e tudo está muito violento. Quero ficar na minha paz. E assim a gente se encolhe. Transformamos nossa casa no nosso mundo. E um dia a gente percebe que estamos sozinhos. Então, debaixo da minha solidão eu vejo o mundo pelas lentes da tecnologia. Tudo é filmado, fotografado, gravado: a menina que caiu, o assalto ao banco, o audio da corrupção. E os pais da menina foram presos porque foram omissos. Certo ou errado a pena é injusta diante do nosso contexto. Mas assim funciona nosso pais. Nosso estado putrefato da burocracia que emperra tudo. E minha revolta não dura muito. E resolvo me anestesiar ouvindo uma balada lounge. A batéria é muito certinha, o baixo também. A mulher sussura como música francesa. É para ser sexi. E conforta. O tempo está feio lá fora. E o mundo muito violento.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Requisitada




Um dia chamei Dora para comer num restaurante chique em Copacabana. Feliz ela foi. Ela falou sobre ela. Sua história triste de infância. A vida na Tijuca, na Lapa, no colégio, nos botecos, seus homens e suas mulheres. Mulheres? Sim, mulheres, ela respondeu naturalmente, erguendo com delicadeza feminina o cálice do bom malbec. Você é muito requisitada, arrisquei. Vi que ela não gostou, mas disfarçou. Sou mesmo. Todos me querem, todos me desejam, mas não sou fácil. É que eu enjôo. De manhã cedo quero ir para casa, cuidar da minha vó.

Na manhã seguinte ela levantou, colocou minhas havaianas, fez café, arrumou a cozinha, tomou uma ducha e se foi. Eu pago o taxi para você. E dei uma nota de cem. Ela sorriu, deu um beijo e foi embora.

Circulando pelo Lavradio


Quando cheguei ela ficou olhando, enlouquecida. Ela estava ligada, completamente ligada. Não sei se tinha amigas ou amigos. Se estava com alguém ou não estava. Isso pouco importava. Eu queria ela e ela estava a fim de mim. Comecei a me preparar. Tomei um gole - dei um trago e me aproximei. Ela sorriu. Eu disse: isso facilita. Eu sei, ela disse. Qual teu nome? Dora, moro com minha avó, que é cega. Eu pensei em dizer, "ainda bem", mas achei que não era conveniente. Legal. Você vem sempre aqui? Tô aqui direto, disse ela. Estou sempre nas bocas da Lapa. Quer me encontrar circule pelo Lavradio.


Foi assim que encontrei Dora, isso faz uns cinco anos. A gente se encontra quando resolvo circular pelo Lavradio. Acho que ela me detesta, porque eu simplesmente desapareço. Dou um tempo, três ou quatro meses e resolvo circular pelo Lavradio. E lá está ela, sempre linda, olhando enlouquecida.

domingo, 28 de junho de 2009

Tunel do Tempo


Super heroi de papel eu mesmo fiz
Assobia
Porcelana dourada quebrei e gerou a primeira angústia
O enigmático castiçal -- dizem -- roubado da igreja guarnece a residência
A velha colher empenada alimento de banana esmagada
Eu quero teu cheiro
Antes da chuva recolho as bolinhas de gude espalhadas no quintal
Eu sempre perguntava: do que vou brincar? E decidido corria para a mesa de botão
Organizo meu campeonato.
Amanhã vou inaugurar minha nova merendeira azul


E depois de ter vivido tudo
Ainda sinto vontade
de debruçar no parapeito da janela
que abre e se fecha com impressionante rapidez
E vai e volta como se tudo fosse um limite
Colecionando os objetos que toquei
Fazendo reviver na minha memória
O gosto do bastão de leite desmancha entre os dentes da boca
Deitado conto a história assisto a velha tv de válvula
No ar o seriado que mais gostava
O túnel do tempo.

Máscara Moderna


Enquanto a prova não vem ele olha a bunda da mulher na cozinha. E ela, com cabelo cortado, lava os pratos com delicadeza. Ele contempla o bem estar daquele momento. Finalmente ele se encontra leve, mas angustiado. É que nada nesse mundo é tão perfeito assim. Existe sempre uma pedrinha no sapato que atormenta os pequenos detalhes. Não basta tirar o tênis e voltar a correr, porque os pés já estão com as marcas do sangue. Amargurado ele se retira e nega o convite para comer. Mas ele está bem, pelo menos está leve. E ele se equilibra distante economizando os sentimentos reprimidos de sua insanidade.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Quebrando Promessas




Eu disse aqui uma inverdade, um segredo que Dora me contou. Sou amigo dela. Apenas amigo. Sou diferente dos outros. Eu não quero conquistar Dora. Não tenho prazer com isso. Eu quero apenas contar suas histórias que ela me confidenciou. Eu jurei para ela que não contaria para ninguém. E estou quebrando essa promessa. Acho que ela não vai entrar no mundo da blogosfera e descobrir que eu falei mal dela por aqui. Assim espero, porque ela é uma criatura bem legal e não merece ser tão exposta assim. Eu disse uma inverdade sobre Dora. Disse que ela teve um namorado chamado Toninho, Tonico ou coisa assim. Ela me disse um dia, quando já tinha tomado algumas num buteco da rua do Lavradio que nunca namorou ninguém. Eu duvidei. Ela jurou. Ela disse que não gosta disso. Que ela gosta mesmo é de sair e conhecer os caras. As vezes ela não sabe nem o nome. Simplesmente ela sai, ela fica, ela gosta, ela goza. Eu nunca tive nada com Dora e nem vou ter. Ela é minha fonte de energia inspiradora, uma musa indecente que descobri por ai, percorrendo as calçadas tóxicas da vida.

Eu vi


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